domingo, 31 de agosto de 2008

CIGANO VLADIMIR

Este cigano é "do mundo"!
É protetor do trabalho, consola e ajuda à todos os que estão momentaneamente sem ele.
Cigano imperioso e trabalhador, gosta das coisas boas da vida, que depois do trabalho seriam:
mulher, mulher e mulher, depois música e comida.
Responsável, falante e guerreiro, os que não tem medo de lutar podem ir até ele.

CIGANO VLADIMIR, UM POUCO DA SUA HISTÓRIA

A mesma observação que por algumas vezes fiz, fica valendo aqui, ou seja, são inúmeras as interpretações dadas para a vida dessa magnânima
Entidade Espiritual chamada Vladimir.
Um Cigano que tem seu nome respeitado e talvez ao lado de Santa Sarah seja a Entidade mais cultuada dentro da chamada Linha do Oriente ou Povo do Oriente.
Por essa sua popularidade e mais que tudo como gratidão ao seu bondoso Espírito, sempre protetor e amigo em nossa vida pessoal, é que resolvi falar um pouco dele aqui.
Escolhi duas das histórias mais correntes:

a primeira versão, muito antiga por sinal e que corre de boca em boca, diz que Vladimir apaixonou-se perdidamente uma Cigana de sua Tribo, só que esse sentimento pela tal Cigana também surgiu dentro do coração de seu irmão.
Para decidir a questão, o irmão de Vladimir propôs um duelo em que ambos disputariam a amada.
Para não fugir à tradição, conta-se que Vladimir aceitou a proposta e dirigiu-se então para o tal duelo, porém, na hora exata de desfechar o golpe, percebeu ele que levaria vantagem, só que essa vantagem significava a possibilidade de matar o próprio irmão.

Aí então, Vladimir tem uma reação totalmente surpreendente para todos que assistiam o duelo, ou seja, não agrediu, ao contrário, não esboçou qualquer reação e assim então, acabou sendo apunhalado pelo próprio irmão, caindo morto em seguida.
A continuidade da história tem um desfecho um tanto quanto trágico, pois a tal Cigana vendo seu amado caído no chão, morto com um punhal cravado no peito, caiu por sobre seu corpo e chorando retirou o punhal do peito de Vladimir, cravando-o em seguida em seu próprio peito, ato este que culminou também em sua morte.
Outra versão, essa enviada por uma amiga e pesquisadora de Cultura Egípcia e Cigana.

Segundo essa amiga a versão a seguir chegou até ela contata por uma Cigana mesmo, ou seja pessoa de etnia Cigana.
Conta-se que o Cigano Vladimir era de origem eslava (Indo-Européia) e que se apaixonou perdidamente por Esmeralda, que assim a chamavam por gostar de trabalhar em magia de cura com pedras verdes (a pedra Esmeralda é verde e também utilizada em cura!) e também gostava desta pedra para o seu uso pessoal, por isto esse apelido; mas ela se casou com outro, pois já estava prometida.
Vladimir se desesperou e começou a beber descontroladamente.
Mais tarde, um pouco conformado, mas ainda apaixonado, passa a trabalhar com magia para unir os casais.

Muitos anos depois, com eles já um pouco idosos, eles se unem, mas ficam pouco tempo juntos, pois ela logo morre.
Seja de que forma for queridos leitores, o fato é que Vladimir é hoje uma Entidade de muita luz, sempre evocada com muito carinho por todos os amantes da Cultura Cigana, principalmente por aqueles que mantém algum tipo de ligação, volto a dizer, com as gloriosas Entidades Espirituais Ciganas, hoje brilhando como pontos luminosos, na Estrada de Estrelas do Espaço Infinito.

CIGANO VLADIMIR

Era moreno-claro, de olhos e cabelos pretos.

SUAS ROUPAS
Wladimir usava roupas diferentes, conforme a fase da lua.
O detalhe constante nessas roupas é que a calça era sempre da mesma cor do colete de veludo que ele vestia por cima da blusa.


Na Lua cheia, ele usava blusão vermelho com colete e calça azul-turquesa;

na Lua crescente, blusão branco, colete e calça brancos rebordados com fios de prata;

na Lua nova, blusão azul-turquesa, colete e calça vermelhos rebordados com pedras coloridas; e

na Lua minguante, blusão branco de mangas compridas, colete e calça marrons e uma faixa branca na cintura.
Em todas as fases da Lua ele usava na cintura uma faixa branca, na qual trazia o seu punhal de prata.

SEUS ADEREÇOSOS

lenço que Wladimir usava na cabeça era de cores diferentes, conforme a fase da Lua.Era azul na Lua cheia, branco no quarto crescente e vermelho na Lua nova.
Na orelha esquerda ele trazia uma argola de ouro e, no pescoço, um cordão de ouro com um medalhão antigo de seu clã.

SUA MAGIA

O Cigano Wladimir aprendeu a tocar violino com seis anos de idade.
Hoje, quando chega à Terra como espírito,pede logo o seu violino e começa a tocar antigas músicas eslavas.

Um detalhe importante:

quem tem esse Cigano na aura não precisa saber tocar violino, pois, ao chegar, ele traz a essência da música.
Esse é o mistério de Wladimir.

sábado, 30 de agosto de 2008

A DOR ENSINA GEMER



Existe um padrão que tem se repetido algumas vezes e que não havia me chamado a atenção, mas pela repetição despertou o meu interesse.
Trata-se da equação Oferta de Trabalhos Espirituais X Pedido de Trabalhos Espirituais.
Não entenderam?
Explico melhor.
Acontece muitas vezes de nós umbandistas, sacerdotes ou não, termos a sensibilidade de percebermos a necessidade da realização de um trabalho espiritual, seja uma simples consulta, frente a determinadas situações das pessoas que nos cercam.
Não falo daquelas pessoas que nos procuram já com esse objetivo, mas sim dos nossos entes queridos, amigos, colegas de trabalho, irmão umbandistas entre outras.
As vezes em uma conversa informal e despretenciosa, nos deparamos com histórias e circunstâncias vivenciadas pelo nosso intelocutor, que ativam o nosso estado de alerta e despertam a nossa percepção para o sentimento de que algo espiritual deveria ser feito sobre o caso específico.
Imbuídos do espírito fraterno, na maioria dos casos nos oferecemos para realizarmos alguma ajuda, que venha sanar, solucionar ou resolver a questão em pauta.
Por acreditarmos nas coisas do sagrado, no mundo espiritual e suas leis de ação e reação, por sermos praticantes, militantes e principalmente termos fé e acreditarmos no aporte do mundo espiritual, rápido é o impulso que toma conta da gente e quando menos esperamos, lá estamos nós oferecendo ajuda.
O problema começa exatamente no oferecimento.
A experiência tem me mostrado que oferecer-se não trás os resultados óbvios, ou seja, ajuda oferecida, oferecimento aceito.
Volta e meia ficamos com o sentimento de que ao oferecer a ajuda estamos forçando uma barra, como se diz, porque passado o primeiro instante, começa pela pessoa que queremos ajudar uma série de criações de obstáculos para que a mesma não se concretize.
De um lado ficamos nós os que enxergamos claramente a necessidade e do outro os necessitados obstaculizando a oportunidade oferecida.
Já me pertubei com tais momentos, já me melindrei por tais atitudes, já me aborreci bastante, até o ponto de me magoar com algumas pessoas.
Resumi a questão para preservar a minha auto-estima nos seguintes motivos:
O necessitado não quer a ajuda, não precisa da ajuda, não acredita que possamos ajudar de fato, e, por fim, prefere continuar do jeito que está, pois sentirá falta do problema e suas consequências.
Esse último lembra bem o caso do obsediado que livre do obssessor o chama inconscientemente de volta por sentir falta da simbiose, ou do viciado que não tem atitude em relação ao vício, pois sentirá a ausência do estado vicioso e assim por diante.
Em contra-partida é possível chegar a conclusão, que quando a necessidade aperta o desespero de causa chega. Geralmente, é quando o caso está na casa do sem jeito. Busca-se então, de forma desenfreada, a ajuda anteriormente rejeitada.
Nos tempos da mágoas eu diria:
“Nada como um dia atrás do outro e uma noite pelo meio”.
Hoje, mais maduro eu entendo que tenho que controlar melhor os meus impulsos salvacionistas (é difícil, as vezes ainda escapa) e esperar que realmente me seja formulado um pedido de socorro formal.
Para chegar essa conclusão, apenas me coloquei um dia no lugar do evangélico que tentou me abordar com a salvação, que eles costumam levar a todos.
Diante da minha recusa veemente, imaginei o quanto esse evangélico deve ter ficado estupefato e sem compreender a minha atitude.
Senti a sua dificuldade em aceitar o fato, que eu tinha recusado a solução, que para ele além de ser legítima é na convicção dele, a única capaz de resolver de forma inquestionável todos os meus problemas.
Os espíritas costumam dizer que:
“Fora da caridade, não há salvação!”.
Concordo, mas temos que ter o cuidado de não exaurirmos os nossos recursos (afinal eles também são nossa responsabilidade, perante a Lei Divina - lembremos sempre da Parábolas dos Talentos), de olharmos a necessidade real para tal caridade, de observarmos se a caridade que faremos ajudará de fato e finalmente se a pessoa está pronta para ser ajudada.
Caso contrário, ajuda ofertada, ajuda rejeitada, ou na melhor das hipóteses mal utilizada.
Tem certas horas que melhor é ficar calado e esperar que o sapato do outrem aperte.
O tamanho da necessidade, em determinados casos, é que forja a humildade de se aceitar o que se oferece de bom grado e sem segundas intenções.
A dor ensina a gemer e o pedido de ajuda surge espontaneamente como consequência natural.
Com relação aos entes queridos e amigos, por uma série de motivos, o pedido de ajuda pode nunca mais ser colocado por eles outra vez.
No caso dos irmãos umbandistas, casa de ferreiro…
É melhor que o espeto de pau da casa cuide do assunto da melhor forma e quando lhe convier.
No mais, uma certeza, antes de oferecer ajuda a alguém esteja completamente convicto que o ajudado realmente quer sua intervenção, ou melhor, ainda, aguarde ele fazer a solicitação com todas as letras.

JESUS TE AMA!


Incontestável esse ato de amor!
Jesus ama a todos.
A você e a mim, sem distinção alguma.
Seja Ele chamado de Jesus, Jesus Cristo, Oxalá, Orixalá, Governador Planetário ou Nazareno, seja considerado Santo, Deus, Orixá, Mestre, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade ou apenas um personagem histórico, o fato que seu amor é verdadeiro para todos que acreditam na sua existência e tem fé nos seus ensinamentos, exemplo de vida e papel planetário e cósmico.

Esse amor é uma realidade para todos os cristãos, espíritas, umbandistas, entre outros, apenas para ficar no exemplo.
Como sabemos, essa frase “Jesus te ama” é utilizada como bandeira de abordagem pelos cristãos evangélicos, principalmente os do segmento pentecostal.
Nós umbandistas, volta e meia, somos atingidos por essa expressão, proferidas pelos obreiros evangélicos, não como uma constatação de que Ele realmente ama todos, mas sim, num tom de reprimenda e advertência, tipo: “Jesus te ama, portanto, veja o que você está fazendo e se corrija.
Ele está sempre pronto, para receber o filho pródigo que se desviou do caminho!”. Ou seja, nós que professamos uma religião diferente da deles, nós que estamos (na visão deles) comungando com os demônios (sic), devemos ser lembrados que embora, estejamos a um passo do “fogo do inferno”, Jesus nos ama e basta apenas que nos “entreguemos” a Ele, renegando a nossa religião, que seu amor através da fé evangélica nos libertará.
Seria piada se não fosse a mais pura expressão de soberba, prepotência e intolerância religiosa.
Soberba por ser uma arrogância se achar em condição superior aos demais que não comungam da sua fé;
prepotência por entender que se está investido de um poder superior, que o habilita a tentar “salvar” alguém e
intolerância religiosa, pela total falta de respeito ao direito constitucional de liberdade de crença alheio.
Nós umbandistas, não nos revestimos de salvadores da pátria, convertidos de última hora.
Respeitamos integralmente, mais do que os direitos constitucionais, de um país laico como o Brasil, o direito espiritual inalienável de todos os nossos irmãos planetários de escolherem o seu religare com o Sagrado, seja uma religião, uma doutrina, uma profissão de fé, ou apenas uma simples escolha de trabalhar pelo bem maior.
Em pleno terceiro milênio, “Jesus te ama!” tem sido usado como uma forma beligerante de intolerância e discriminação religiosa.
Acreditam determinados “obreiros”, que estão trabalhando para arrancar o argueiro dos olhos dos infiéis, esquecendo completamente de arrancar a trave, não dos seus próprios olhos, ou dos seus corações, mas de suas próprias almas.

Ao ser atacado por um “Jesus te ama!”, se der tempo eu respondo:
“Ele ama você também!”.

O PRETO VELHO E O JULGAMENTO DO MÉDIUM


Dentro do Centro Espírita,
Os mestres de branco aconselhavam e oravam.
Fora do Centro e de vista,
O preto velho a todos protegia e guardava.

O Médium sentou e se preparou,
Para psicografar a mensagem.
Quando o preto velho se aproximou,
O moço ficou julgando a entidade.

“Onde já se viu espírito,
Com esse jeito de ex-escravo negro?
Se ele fosse mesmo evoluído,
Não falaria assim desse jeito.”

O preto velho sorriu,
Mesmo perdendo a viagem.
Não entendia o preconceito do médium,
Mas, ainda assim, deu-lhe um passe.

Ele sabia que no dia certo,
Aquele médium perceberia o fato:
Que se aprende tanto com o médico,
Quanto com o operário.

Despediu-se dos mestres do Centro,
Que lhe olharam pedindo paciência.
Embora o trabalho ainda fosse lento,
Aumentava o discernimento e consciência.

A cada dia que passa,
Os novos médiuns estão descobrindo.
Que não importa como se fala,
E sim o que está sendo dito.

Por isso é que na rua ou no Terreiro de Umbanda,
O Preto Velho continua o seu trabalho e nunca pára.
Até que os tambores de Aruanda
O convidem para uma outra jornada.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

BANDEIRA LINDA DE OGUM


Está içada lá no Humaitá
Ele é Ogum, é general de umbanda
Ogum venceu demanda
Em qualquer lugar

Eu tenho sete espadas para me defender
Eu tenho Ogum em minha companhia
Ogum é meu pai,
Ogum é meu guia
Ogum é meu pai
Ele filho da Virgem Maria

Beira rio, beira rio, beira mar
O que se ganha de Ogum
Só Ogum pode tirar (2x)
Seu Ogum de Ronda
E quem vem girar
E vem trazendo folhas
Pra descarregar

Se meu pai é Ogum
Vencedor de demandas
Ele veio de aruanda
Pra salvar filhos de umbanda
Ogum, Ogum Iara
Ogum, Ogum Iara
Salve os campos de batalha
Salve a sereia do mar
Ogum, Ogum Iara
Ogum, Ogum Iara

Que cavaleiro é aquele
Que vem cavalgando pelo céu azul
Ele é São Jorge guerreiro
A falange de Ogum
Ê e e, seu canjira
Ê e e, seu canjira pisa no conga

Quem está de ronda é
Ogum é quem vem rondar
Abre a porta ó gente
Deixa a falange de Ogum entrar

Ogum de Male
Não me deixes sofrer tanto assim (2x)
Quando eu morrer
E passar pela Aruanda
Vou pedir meu pai Ogum
Para salvar filhos de Umbanda

Seu Ogum Beira Mar
O que trouxe do mar (2x)
Quando ele vem beirando a areia
Vem trazendo no braço direito
O rosário de mamãe sereia(2x)

Segura essa gira Ogum
Não deixe a demanda entrar
É hora, é hora, é hora Ogum
É hora de trabalhar
E Ogum cavaleiro de Oxum
E remador de Iemanjá
Ele é soldado, ele é guerreiro
E ordenança de Oxalá

terça-feira, 26 de agosto de 2008

OXUM NA UMBANDA



Oxum / Nª. Srª. da Conceição, na Umbanda

Na interpretação mais tradicional na Umbanda,
Oxum é considerada uma cabocla da linha de Iemanjá.
"Cabocla Oxum"
líder da sua sétima falange.
Devido ao sincretismo com Nossa Senhora
(principalmente nas invocações em que parece mais jovem, como Nossa Senhora da Conceição),
a cor de suas guias costuma ser o azul-escuro.

MITOS DE OXUM

Oxum queria muito aprender a arte da adivinhação
e foi procurar Exu que, matreiro, disse a Oxum que lhe ensinaria os segredos da adivinhação se ela, durante sete anos, passasse, lavasse e arrumasse sua casa.
Oxum foi aprendendo a arte da adivinhação cumprindo seu acordo.
Findando os sete anos, Oxum e Exu, tinham se apegado bastante pela convivência em comum e Òsùn resolveu ficar em sua companhia.
Um dia, Xangô passou, avistou Oxum que se banhava à margem do rio e se apaixonou.
Perguntou se não gostaria de morar em sua companhia em seu palácio em Oyó.
Oxum rejeitou o convite, pois lhe fazia muito bem a companhia de Exu.
Xangô então sequestrou Oxum e levou-a em sua companhia.
Exu saiu a procurar, por todas as regiões, pelos quatro cantos do mundo sua doce pupíla de anos de convivência.
Chegando nas terras de Xangô, foi surpreendido por um canto triste e melancólico que desvinha da direção do palácio do rei de Oyó, da mais alta torre.
Lá estava Oxum, triste e a chorar por sua prisão.
Exu, esperto e matreiro, procurou a ajuda de Òrùnmílá, que de pronto agrado lhe sedeu uma poção de transformação para Oxum desvencilhar-se dos dominíos de Xangô.
Exu, por meio da magia pôde fazer chegar as mãos de sua companheira a tal poção.
Ela tomou a poção mágica e transformou-se em uma linda pomba dourada, que voou e pôde então retornar em companhia de Exu para sua morada.
Oxum queria saber o segredo do jogo de búzios que pertencia a Exu e este não queria lhe revelar.

Ela então procurou na floresta as Iyami Oxorongá e lhes perguntou como enganar a Exu e conseguir o segredo do jogo de búzios.
As feiticeiras, querendo pregar uma peça a Exu, ensinaram toda a sorte de magias a Oxum, mas exigiram que ela lhes fizesse uma oferenda a cada feitiço realizado.
Oxum concordou e foi procurar Exu.
Este, desconfiado, perguntou-lhe o que queria por ali, que ela deveria embora e que ele não a ensinaria nada.
Ela então o desafia a descobrir o que tem entre os dedos.
Exu se abaixa para ver melhor e ela sopra sobre seus olhos um pó mágico que ao cair nos olhos de Exu o cega e arde muito.
Exu gritava de dor e dizia;
"Eu não enxergo nada, cadê meus búzios?"
Oxum fingindo preocupação, respondia:
"Búzios? Quantos são eles?"
"Dezesseis", respondeu Exu, esfregando os olhos.
"Ah! Achei um, é grande!"
"É Okanran, me dê ele".
"Achei outro, é menorzinho!"
"É Eta-Ogundá, passa pra cá..."
E assim foi até que ela soube todos os segredos do jogo de búzios, Ifá, o Orixá da adivinhação, pela coragem e inteligência da Oxum, resolveu dividir o poder do jogo entre ela e Exu.
Oxalá passou pela aldeia de Oxum, onde pretendia parar e descansar.

Exu, o mensageiro, correu para avisar Oxum que o grande orixá funfun estava a caminho de sua cidade.
Era preciso organizar uma grande recepção, pois a visita era muito importante para todos.
Ela apressou-se com os preparativos da festa, ordenando a limpeza de todas as casas e lugares públicos, bem como que os enfeites utilizados fossem da cor branca.
Oxum cuidou pessoalmente da ornamentação e limpeza de seu palácio, pois tudo tinha que estar perfeito, à altura de Oxalá.
Com tantos afazeres importantes, em tão curto espaço de tempo, Oxun não se lembrou de convidar as Iyami para a grande festa e as feiticeiras não perdoaram a desfeita.
Resolveram desmoralizar Oxum.
Toda a aldeia estava impecável.
O palácio de Oxum, caprichosamente preparado, tinha seus móveis e utensílios cobertos por tecidos de uma alvura imaculada.
Branca também seria a cor das roupas utilizadas na cerimônia.
Mas, no dia da chegada de Oxalá, Oxorongá entrou disfarçada no palácio para colocar, no assento do trono de Oxum, um preparado mágico, sem ser notada.
Oxalá finalmente chegou, sendo respeitosamente reverenciado numa grande demonstração de fé e admiração ao grande mensageiro da paz.
Oxun, em seu trono, esperava impaciente a entrada de Oxalá em seu palácio para oferecer-lhe seu próprio assento.
Mas, ao tentar levantar-se, estava presa em sua cadeira e não conseguia soltar-se.
Fez tanta força, que, mesmo ferida, conseguiu ficar em pé, mas uma poça de sangue havia manchado suas roupas e também sua cadeira.
Quando Oxalá viu aquele sangue vermelho no trono em que se sentaria, ficou tão contrariado, que saiu imediatamente do recinto, sentindo-se muito ofendido.
Oxum, envergonhada, não conseguia entender porque havia ficado presa em sua própria cadeira, uma vez que ela mesma cuidara de todos os preparativos.
Escondendo-se de todos, foi consultar o oráculo de Ifá para obter um conselho.
O jogo, então, lhe revelou que Oxorongá havia enfeitiçado seu assento, por não ter sido convidada.
Exu, a pedido de Oxum, buscou o grande pai, para explicar-lhe o ocorrido.
Oxalá retornou ao palácio, onde a grande mãe das águas estava sentada de cabeça baixa, muito constrangida.
Quando ela o viu, começou a abanar seu abebe e transformou o sangue de suas roupas em penas vermelhas, que, ao voar, caíram sobre a cabeça de todos os que ali estavam, inclusive a de Oxalá.
Em reconhecimento ao esforço que ela empreendeu para homenageá-lo, ele aceitou a pena vermelha (ekodide), prostrando-se à sua frente, em sinal de agradecimento.
Quando os orixás chegaram à terra, organizaram reuniões onde mulheres não eram admitidas.

Oxum ficou aborrecida por ter sido posta de lado e não poder participar de todas as decisões.
Para se vingar, tornou as mulheres estéries e impediu que as atividades desenvolvidas pelos deuses chegassem a resultados favoráveis.
Desesperados, os orixás dirigiram-se a Olodumaré e explicaram-lhe que as coisas íam mal sobre a terra, apesar das decisões que tomavam em suas assembléias.
Olodumaré explicou-lhes então que, sem a presença de Oxum e seu poder sobre a fecundidade, nenhum de seus empreendimentos poderia dar certo.
De volta à terra, os Orixás convidaram Oxum para participar de seus trabalhos, o que ela acabou aceitando, depois de muito lhe rogarem.
Em seguida, as mulheres tornaram-se fecundas e todos os projetos obtiveram felizes resultados.

OXUM, NO NOVO MUNDO

No Brasil e em Cuba,
os adeptos de Oxum usam colares de contas de vidro de cor amarelo-ouro e numerosos braceletes de latão.
O dia da semana consagrado a ela é o sábado e é saudada, como na África, pela expressão “Ore Yèyé o!” (“Chamemos a benevolência da Mãe!”).
Fazem-se sacrifícios de cabras a Oxum e oferecer-lhe prato de mulukun (mistura de cebolas, feijão-fradinho, sal e camarões) e de adun (farinha de milho misturada com mel de abelha e azeite doce).
A sua dança lembra o comportamento de uma mulher vaidosa e sedutora que vai ao rio se banhar, enfeita-se com colares, agita os braços para fazer tilintar seus braceletes, abana-se graciosamente e contempla-se com satisfação num espelho.
O ritmo que acompanha as suas danças denomina-se ijexá, nome da região da África por onde corre o rio Oxum.
É o único ritmo tocado com as mãos no rito kêtu, calmo, balanceado, envolvente e sensual, como a deusa da água doce.
É tocado ainda para Logunedé e algumas vezes para Exu e para Oxalá.
No Brasil, ela é sincretizada com Nossa Senhora das Candeias, na Bahia e Nossa Senhora dos Prazeres, no Recife.
Em Cuba, com Nuestra Señora de la Caridad Del Cobre.
O arquétipo de Oxum é o das mulheres graciosas e elegantes, com paixão pelas jóias, perfumes e vestimentas caras.
Das mulheres que são símbolos do charme e da beleza.
Voluptuosas e sensuais, porém mais reservadas que Oiá.
Elas evitam chocar a opinião pública, à qual dão grande importância.
Sob sua aparência graciosa e sedutora esconde uma vontade muito forte e um grande desejo de ascensão social.

ORAÇÃO PARA FECHAMENTO DE CORPO

Justo juiz de Nazaré.
Filho da Virgem Maria.
Que em Belém foste nascido entre as idolatrias.
Eu vos peço Senhor, pelo vosso sexto dia
E pelo amor de meu padrinho Ciço
Que o meu corpo não seja preso, nem ferido, nem morto
Nem nas mãos da justiça envolto
Pax tecum.
Pax tecum.
Pax Tecum.
Cristo assim disse aos seus discípulos
Se os meus inimigos vierem para me prender
Terão olhos, não verão
Terão ouvidos, mas não ouvirão
Terão bocas, não me falarão
Com as armas de São Jorge serei armado
Com a espada de Abraão serei coberto
Com o leite da Virgem Maria serei borrifado
Na arca de Noé serei arrecadado
Com as chaves de São Pedro serei fechado
Onde não me posam ver nem ferir, nem matar
Nem sangue do meu corpo tirar
Também vos peço, Senhor,
Por aqueles três cálices bentos
Por aqueles três padres revestidos
Por aquelas três hóstias consagradas
Que consagrastes ao terceiro dia
Desde as portas de Belém até Jerusalém
E pelo meu Santo Juazeiro
Que com prazer e alegria
Eu seja também guardado de noite como de dia
Assim como andou Jesus no ventre da Virgem Maria
Deus adiante, paz na quia
Deus me dê a companhia que sempre deu a Virgem Maria
Desde a casa santa de Belém até Jerusalém
Deus é meu pai, Deus é meu pai,
Nossa Senhora das Dores minha mãe
Com as armas de São Jorge serei armado
Com a espada de Santiago serei guardado para sempre
Amém!

OXALÁ, DEFINIÇÃO ENERGÉTICA

Oxalá, na Umbanda representa o Orixá associado à criação do mundo e da espécie humana.

Apresenta-se de duas maneiras:
moço – chamado Oxaguiam
velho – chamado Oxalufam.
O símbolo do primeiro é uma idá (espada)
o do segundo é uma espécie de cajado em metal, chamado ôpá xôrô.

A cor de Oxaguiam é o branco levemente mesclado com azul,
do de Oxalufam é somente branco.

O dia consagrado para ambos é a sexta-feira.

Sua saudação é ÈPA BÀBÁ!

Oxalá é considerado e cultuado como o maior e mais respeitado de todos os Orixás do Panteão Africano.
Simboliza a paz é o pai maior nas nossas nações na Religião Africana.
É calmo, sereno, pacificador, é o criador, portanto respeitado por todos os Orixás e todas as nações.
A Oxalá pertence os olhos que vêem tudo.
Oxalá seja na Umbanda ou no Candomblé é o mesmo Orixá.

O que muda da Umbanda para o Candomblé em relação aos Orixás é a forma de manifestação (incorporação), trato, simbolos e assentamentos, vestimentas, imagens etc.
Porém, a essência do Orixá é a mesma.
Em algumas formas de Umbanda Oxalá é sincretizado com Jesus Cristo.
Esse sincretismo é uma herança do aculturamento sofridos pelos negros ao longo do período colonial.
Uma associação ora forçada pelos Jesuítas na imposição da fé Cristã, ora um símbolo de resistência onde da imagem do Santo Católico, se cultuava os Orixás africanos (por isso as datas dos festejos dos Orixás, coincidem com as dos Santos Católicos).
A imposição e a própria resistência acabaram virando práticas populares.
As imagens dos Santos Católicos se confundiram com as dos Orixás, não se sabendo onde começa um e onde termina o outro.
Porém, dentro do terreiro, ao som dos atabaques, pode até ter a imagem dos Santos, mas quem incorpora são os Orixás.
Podem cantar pontos onde se escuta o nome de São Jorge por exemplo, mas quem monta no "cavalo" é Ogum.
Hoje em dia muitos terreiros estão deixando as imagens Católicas e cultuando os Orixás baseados em seus elementos, tais como:
águas de Oxum, Ferro de Ogum, Otá (pedra) de Xangô.
Ou utilizando-se de assentamentos, onde ali é colocada uma parte da essência do médium e parte da essência do Orixá.

Definição Energética
Trono natural da Fé, primeira razão do movimento do Universo, campo de atuação primeiro regendo a religiosidade dos seres, ou a crença que têm para o positivismo.
De natureza elemental cristalina, cuja presença se encontra em todos as outras vibrações de ordem divina como base.
Dos textos antigos já se tem o nome
Cristo como cristal ou cristalino e essa referência de todos os mestres da luz que vieram à nascer na matéria para guiar a humanidade.
Suas ondas magnetizadoras despertam a ética nos seres, ou seja a base das religiões, algumas dessas ondas chegam até os nossos olhos cruzadas o que tornou o símbolo da cruz aquele a ser deixado como referência pelo nosso Mestre Cristo.


domingo, 24 de agosto de 2008

MARIA PADILHA DAS ALMAS

Falar desta entidade tão apreciada e poderosa dentro da Umbanda é uma honra!
Mais como existem tantas histórias relacionadas a esta entidade, que achei melhor incluir aqui uma poesia que se baseia na sua real história e ao mesmo tempo tem a síntese desta nobre entidade que é Maria Padilha das Almas.

Vou contar uma lenda de uma pobre Maria,
Que conheceu o luxo e a agonia!
Vou contar a lenda de Maria Padilha,
Que escondia a sedução sob a mantilha!
Ela viveu no século XIV, cheio de magia, Misticismo e fantasia!
Ela nasceu na Espanha valorosa, Formosa e maravilhosa!
Ainda criança, Maria Padilha foi abandonada...
Por sua mãe, que era uma coitada...
Ela era filha de mãe solteira...
E virou uma órfã verdadeira!
Ela nunca teve uma família inteira...
Assim , ela foi criada por uma feiticeira!
Ela gostava de dançar o “flamenco” sensual ...
De uma forma especial!
Ela gostava de vestir preto e vermelho...
Para treinar a dança no espelho!
Na adolescência, ela virou uma cortesã elegante...
Conhecendo muita gente importante!
Ela foi apresentada à Dom Pedro I de Castela...
De uma forma elegante e bela...
Pelo primeiro ministro numa festa...
Ao som de uma linda orquestra!
Assim, os dois dançaram...
E se apaixonaram...
Mas, Pedro estava noivo de Branca de Bourbon,
Que era frágil e sempre saia do tom!
Mas , Maria Padilha fez uma bruxaria,
Que gerou uma grande agonia:
Ela jogou um feitiço no cinto em que Branca...
De uma forma ingênua e franca ...
Presenteou o seu amado...
De um jeito calado!
Assim, depois do casamento...
Sem nenhum sentimento...
Aconteceu um tormento:
Branca, dois dias depois, foi abandonada...
Sem entender, absolutamente, nada!
Depois, os membros bastardos da família real...
Seqüestraram Pedro de um jeito sensacional!
Mas, com a ajuda de Maria Padilha...
Pedro escapou de toda aquela matilha!
Então, ele decidiu transferir sua corte para Alcazar de Sevilha...
Junto com sua amada Maria Padilha!
Depois, ele bolou uma vingança sem piedade...
E matou seus 9 irmãos traiçoeiros de verdade!
Por causa desta vingança de fel...
Ele ficou conhecido como: Pedro , o cruel!
Com Maria Padilha, ele teve 4 crianças...
Carregadas de coragem e esperanças!
Porém, um dia...
Cheio de agonia...
A linda Maria...
Morreu vítima da peste negra com muita dor...
Mas, Pedro chorando com ardor...
Nomeou a amada morta como rainha original...
De uma forma especial!
Porém Pedro, o cruel...
Conheceu o próprio fel...
Morrendo nas mãos do único irmão bastardo que escapou a sua ira...
Mas, que conheceu a atrocidade e a mentira!
Esta é a história de Maria Padilha,
Que escondia a sedução sob a mantilha...
E que de tanto fazer magias e de possuir um olhar de vampira...

Tem seitas que dizem que ela é a real pomba–gira.
Maria Padilha é uma pomba-gira muito feiticeira e adora vestir preto e vermelho, recebe seus pedidos e oferendas nos cruzeiros de chão como em cemitérios. Adora bebida Anis, farofa amarela e bolinhos de carne moída com pimenta, Recebe rosas vermelhas, cigarrilhas e adereços de mulher.
Trabalha para ambos os lados, basta pedir que ela estará lá prontinha para te ajudar!
Amarra, desamarra, abre e fecha caminhos...
Quando esta incorporada é muito dançante e alegre, fala alto e dá muita risada

”É noite no cemitério...

é noite em zoxilá...
é exu Maria Padilha que acaba de chegar...
trás no ombro uma coruja...
sua saia vem rodar...
vem rodar exu das a rainha zoxilá!”

MARINHEIROS

SALVE O POVO DA ÁGUA!!!

Eles chegam do mar e desembarcam em terra,
sua alegria é contagiante, abraçam a todos, brincando sempre, com aquele jeito meio “maroto”, embriagado.
São os Marinheiros, grupo de Espíritos que trabalham na Umbanda em prol da caridade.
Eles conheceram muito bem o mar e a navegação, pois participaram da descoberta de novos mundos através das viagens que empreenderam que duraram anos e anos.
As Entidade de Marinheiro trabalham na Linha de Iemanjá e também de Oxum, que compõem o chamado “Povo da Água”.

Seus conselhos e mensagens são sempre cheios de esperança e de fé.
Costumam trabalhar em grupos.
São fortes, pois enfrentarem guerras e mares agitados, mas também conheceram a calmaria e a bonança.
Dão consultas, passes e também fazem trabalhos fortes de descarrego que envolvam grandes demandas.

Em algumas casas, também costumam trabalhar nas giras de desenvolvimento de Médiuns.
Quando dão consultas, essa Falange costuma ir direto ao ponto, sem rodeios, mas também sabem como falar aos consulentes sem criar um clima desagradável ou de medo.

Assim, conseguem atingir fundo as almas dos aflitos que costumam procura-los em busca de auxilio e de esperança.
Carregam consigo um sentimento profundo de amizade.

Nas consultas, gostam muito de ajudar àquelas pessoas que se apresentam com problemas amorosos.
Seus conselhos são sempre fiéis e certeiros, têm uma grande responsabilidade e assumem o compromisso de um trabalho bem-feito.

Todas as pessoas tem uma idéia muitas vezes distorcida desta linha de trabalho. Os marinheiros são em sua grande maioria espíritos que militam a umbanda para dar sustento no campo da diluição de cargas trevosas, outros atuam como elementos de sustentação de trabalhos voltados a curas, atraindo os poderes elementais dos quais estes espíritos de alto grau espiritual, trazem consigo.
Na realidade estes abnegados servidores da lei são verdadeiros “magos que atuam nos mistérios aquáticos” e com uma forma de atuação única dentro dos domínios da umbanda.

Como magos, trazem para nós, a possibilidade de nos libertarmos de nossos entraves, com uma forma bem simpática lidam com os consulentes de forma extrovertida, deixando o assistido muito avontade com trejeitos peculiares desta linha maravilhosa da umbanda.
Muito diferente do que imaginamos, estes irmãos do astral não são e não estão embriagados, como muitos se mostram, na realidade sua forma de balanço é uma maneira de liberar suas ondas energéticas se utilizando do próprio médium.


Como isso ocorre?
Em torno do médium existe um campo de energia sustentado por seus centros de força e, além da energia gerada a partir da energia corpórea, existe um campo espiritual que se reflete em todo o ambiente.

Os guias quando encorporados em seus médiuns, dançam, giram, balançam, gesticulam, etc…
desta forma os guias liberam não só a energia que se desprende do médium, mas também libera de forma salutar o poder de seu mistério através de ondas magnéticas que são liberadas dentro do campo espiritual do médium e do templo. É desta forma que os marinheiros fazem, em formas onduladas, ou através de seu balanço, que mais parece de uma pessoa embriagada, é que este irmão na luz faz seu trabalho redentor dentro dos campos da Umbanda Sagrada.
É importante que os médiuns e principalmente os assistidos, saibam de tal fato, para que estes não deturpem e não dêem um mal sentido aos trabalhos de Umbanda.
Os marinheiros são sustentados pelo poder de nossa Mãe Iemanjá e sua cor de atuação é a mesma desta mãe Divina, que é o azul claro.

Podemos sempre que necessitarmos, ativar o poder destes servidores da lei em nossa vida, acenda sua vela e faça uma prece, pedindo para eles abrirem seus caminhos e protege-los.
É maravilhoso.
Todos devem estar sempre com os pensamentos voltados ao Pai Celestial, para que assim a fé interior esteja sempre renovada.

Que todos tenham a consciência de que as mudanças só serão possíveis se partirem primeiramente de vosso íntimo e acreditar, lutar pelos vossos idéias.
A busca do sucesso depende de vosso próprio esforço, dedicação e merecimento.
Portanto, não pare no tempo, cruzando os braços a espera de milagres.
Levantem-se, tenham fé, renovem suas esperanças, acreditem no poder do Pai Maior e corram atrás de seus objetivos.
Alimentem vosso espírito com muito amor, esperança e fé para assim projetar a verdadeira essência divina a todos os vossos semelhantes. Vossa mente tem um poder grandioso.

Use-a para exercitar o bem, com o objetivo de unirmos nossas forças para estarmos cada vez mais ligados a Deus, receba de braços abertos à energia de todos os Orixás, dos vossos marinheiros que estão o tempo todo a vos ajudar quando solicitados.
Sejam positivos em qualquer situação.
Se você quer o melhor para sua vida, comece fazendo uma reflexão de seus próprios atos, pois muitas pessoas reclamam de determinados acontecimentos em suas vidas, mas esquecem de que tudo tem um porque.

Portanto, reflitam sobre vossos pensamentos e atitudes para que não sofra conseqüências negativas.

A vida é um espelho.
Vigie-a sempre.

E lembre-se de que tudo pode quando trazemos “Deus” em nossos corações.

A alegria dos MARINHEIROS!

“Quantas ondas tem o mar?
Quantos grãos tem de areia?
Eu vim pra descarregar
Sou marinheiro da mamãe sereia.”

Aos poucos eles desembarcam de seus navios da calunga grande e chegam em Terra.
Com suas gargalhadas, abraços e apertos de mão.
São os marujos que vêm chegando para trabalhar nas ondas do mar.
Os Marinheiros são homens e mulheres que navegaram e se relacionaram com o mar.
Que descobriram ilhas, continentes, novos mundos.
Enfrentaram o ambiente de calmaria ou de mares tortuosos, em tempos de grande paz ou de penosas guerras.
Os Marinheiros trabalham na linha de Iemanjá e Oxum (povo d’áqua) e trazem uma mensagem de esperança e muita força, nos dizendo que se pode lutar e desbravar o desconhecido, do nosso interior ou do mundo que nos rodeia se tivermos fé, confiança e trabalho unido, em grupo.
Seu trabalho é realizado em descarregos, consultas, passes, no desenvolvimento dos médiuns e em outros trabalhos que possam envolver demandas.
A gira de marinheiro e bem alegre e descontraída.
Eles são sorridentes e animados, não tem tempo ruim para esta falange.
Com palavras macias e diretas eles vão bem fundo na alma dos consulentes e em seus problemas.
A marujada coloca seus bonés e, enquanto trabalham, cantam, bebem e fumam.
Bebem Whisky, Vodka, Vinho, Cachaça, e mais o que tiver de bom gosto.
Fumam charuto, cigarro, cigarrilha e outros fumos diversos.
Em seus trabalhos são sinceros e ligeiramente românticos, sentimentais e muito amigos.
Gostam de ajudar àqueles e àquelas que estão com problemas amorosos ou em procura de alguém, de um “porto seguro”.
A gira de marinheiro, em muito, parece uma grande festa, pela sua alegria e descontração, mas também, existe um grande compromisso e responsabilidade no trabalho que e feito.
Salve o Povo D’água!

MAROLA DO MAR
Entidade ligada ao povo d’água.
Sua função dentro desta linha é de fazer a limpeza de toda a carga acumulada, após algum trabalho mais pesado, levando todas as cargas negativas para as ondas do mar sagrado.
Entidade que trabalha na linha de Iemanjá, com forte influencia de Ogum, facilmente (ou comumente), confundido com marinheiro, é uma entidade que não bebe e nem fuma, seu descarrego é baseado no movimento da “marola do mar”, que vai e vem.
Foi um ser vivente em uma época muito distante.
Quando vivo, tinha fixação pelas ondas do mar, conseqüentemente por Iemanjá, passava horas a fio a observar as ondas na esperança de vê-la.
Cansado de esperar pela visão tão esperada, foi ao encontro das ondas julgando ouvir o chamado de Iemanjá, sendo assim tragado pelas ondas, encontrando enfim a morte nos braços de sua paixão.
Passado o tempo, voltou como entidade, por sua afinidade com este Orixá, passou a trabalhar nesta linha, com a função de levar para Iemanjá toda a carga negativa que se encontrasse ao redor de seus filhos queridos.
É uma entidade rara em terreiros de umbanda, até hoje poucos se viram ou se sabe da existência, porém, é uma entidade de muita força e luz.

Material de trabalho: Velas azul e branca
Local de entrega: Na marola do mar

Ponto cantado:
A “marola do mar”
E vem tombando
e vem tombando
e vem tombando
A “marola do mar”
E vai tombando e todo mal vai carregando.

PONTOS DE MARINHEIRO
Andai No Mar! (2x)
Quem Acompanha Marinheiro
Toda Vida Anda No Mar!
—————————————–
Marinheiro, Marinheiro…
Marinheiro Só…
Quem Te Ensinou A Nadar…
Marinheiro Só…
Oi Foi O Tombo Do Navio…
Marinheiro Só…
Oi Foi O Balanço Do Mar!
Marinheiro Só…
Lá Vem…
Lá Vem…
Ele É Faceiro…
Todo De Branco…
Com Seu Bonezinho…
Marinheiro, Marinheiro!
Quem Te Ensinou A Nadar…
Oi Foi O Tombo Do Navio…
Oi Foi O Balanço Do Mar…
Eu Não Sou Daqui…
Eu Sou Do Amor!
Eu Sou Da Bahia…
De São Salvador!
Marinheiro Só…

—————————————–

Marinheiro Agüenta O Leme
Não Deixa A Barca Virar!
É Contra O Mar
É Contra O Vento!
É Contra O Vento
É Contra O Mar!

—————————————–

Ô Martim Pescador Que Vida É A Sua?
Bebendo Cachaça E Caindo Na Rua!
Não Vá Beber…
Não Vá Se Embriagar!
Não Vá Cair Na Rua Pra Polícia Te Pegar!
Eu Já Bebi…
Eu Já Me Embriaguei!
Eu Já Caí Na Rua E A Polícia Não Pegou!

—————————————–

Eu Venho De Longe Pisando Na Areia
Na Areia Tenho Que Pisar!
Mas Ele É Seu Marinheiro Verdadeiro…
Aqui Em Qualquer Lugar!

—————————————–

Um Barquinho Vem Vindo Do Mar…
É O Marinheiro Que Vem Trabalhar!
Ele É Filho Das Águas Claras…
Eu Venho Aqui Quando Me Chamar!

—————————————–

Marinheiro Vem Do Mar…
No Balanço Do Navio…
Vem Trazendo A Santa Bênção…
Para Todos Os Seus Filhos!
Yemanjá Governa As ÁguasYansã A Tempestade
Com A Força Do Divino
Vem Trazendo A Caridade!
No Céu A Lua Brilha
As Ondas Do Mar Balançam
No Dia De Nossa Senhora
Na Areia A Sereia Canta!

—————————————–

Hei Marinheiro!
Seu Barco Estava Afundando!
Ainda Bem Que Ele Foi Salvo
Na Jangada Dos Baianos!

—————————————–

ô, Marinheiro…
Dá licença de passar,
Seu navio está no porto,
Ele veio de alto mar.
É no balanço do mar q ele vem…
É no balanço do mar q ele vai…
É no balanço do mar q ele vem…
É no balanço do mar q ele vai…

—————————————–

Rema a canoa, Canoeiro…
Rema a canoa, Devagar…
Rema a canoa.
Canoeiro, não deixe o barco virar.

UMBANDA

UMBANDA

“Você que fala da Umbanda,
não sabe o que a Umbanda é,
a Umbanda é força divina,
a Umbanda é pra quem tem fé.

A Umbanda
é de Preto-Velho e de Caboclo de pé no chão”

sábado, 23 de agosto de 2008

NÃO SE DEIXE HUMILHAR


Não se deixe humilhar,
se alguém ofender sua crença, sua religião,
saiba que há leis que a protegem
e cobre das autoridades competentes as devidas providências,
previstas, inclusive, no código penal.
Leia com muita atenção
e guarde na memória os artigos, parágrafos e incisos que podem e devem ser evocados caso sua religião ou você enquanto fiel sejam resrespeitados.
Legislação e Candomblé, Babalorixás e iyálorixás devem ser conscientes de suas obrigações com a sociedade e com os deuses africanos, e essa tendência, felizmente, tem se solidificado ao longo desses anos.
Muitos porém, desconhecem seus direitos, deixando-se subjulgar e admitindo ser tratados como cidadãos de segunda categoria.
Por se tratar de religião e cultura, o Candomblé é duplamente protegido na forma da lei pela Constituição da República Federativa do Brasil.
É preciso portanto difundir os direitos dos adeptos do Candomblé, bem como dos templos religiosos, assegurando a liberdade e a igualdade entre todos os brasileiros, independente de sexo, cor, situação social ou religião.
O grande desafio que se impõe ao Candomblé na atualidade é ser reconhecido como religião.
A questão, embora muito clara para intelectuais de diversas áreas, sobretudo a antropologia e a ciências sociais, ainda permanece como uma incógnita para a sociedade, que não diferencia as religiões definidas como mediúnicas das de origem renciação e conhecimento;
Candomblé é religião, não é seita”.
Que fique bem claro, especialmente para os adeptos do Candomblé (já que qualquer movimento de revalorização começa de dentro pra fora).
Candomblé é religião e muito mais, pois, ao preservar tantas tradições trazidas por nossos antepassados negros, tornasse um importante foco de resistência da cultura afro-brasileira.
Por se tratar de religião e cultura, o Candomblé é duplamente protegido na forma da lei pela Constituição da República Federativa do Brasil.
Outrossim,
artigo 208 do Código Penal Brasileiro
prevê, para o crime de ultraje a culto e impedimento ou perturbação de ato a ele relativo, pena de detenção de um mês a um ano ou multa.
Para que todas as pessoas que professam o Candomblé fiquem cientes dos seus direitos é bom observar com atenção os artigos constitucionais que podem que podem e devem ser evocados quando qualquer cidadão sentir-se aviltado no que diz respeito à liberdade de crença religiosa.
O artigo 5° da Constituição Federal assegura:

Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes à igualdade, à segurança e à propriedade.
O estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional.

Portanto, como a instituição assegura que não deve haver distinção de qualquer natureza, católicos, protestantes, evangélicos, umbandistas, espíritas, budistas, mulçumanos, membros do Candomblé e etc…
São iguais em direitos e obrigações, estamos pois, submetidos às mesmas leis e devemos observar o inciso VI do artigo 5° da Carta Política de 1988, que diz:
É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma, da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias.
Ainda na Constituição Federal, o parágrafo 1° do artigo 215 deixa muito claro que o Candomblé que é também evidente manifestação da cultura popular afro-brasileira, pode contar com a proteção do estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.
Parágrafo 1°. O estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras e dos outros grupos participantes do processo civilizatório Nacional.
Na legislação infraconstitucional diretamente relacionada ao inciso VI do artigo 5°, o artigo 208 do Código Penal, merece menção, haja vista dos crimes que define têm sido cometidos frequentemente contra adeptos das religiões afro-brasileiras sem que se tomem providências primeiramente por uma nítida falta de interesse das autoridades e depois por que os adeptos, na maioria das vezes, não sabem que tais atos constituem crime.

Fazer uma oferenda numa encruzilhada é um direito, assim como é um direito do crente pregar em praça pública ou do católico fazer procissões.

Artigo 208. Escarnecer de alguém, publicamente, por motivos de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso:

Pena: detenção, de 1 mês a 1 ano, ou multa.

Parágrafo único. Se há emprego de violência, a pena é aumentada de um terço, sem prejuízo da correspondente violência.

Como fica a situação quando a polícia, respaldada pelo poder do estado, infringe a lei?
Se considerarmos que a proteção aos locais de culto e as suas liturgias é garantida na forma da lei, é dever da polícia, quando solicitada, prestar assistência aos adeptos para que possam cumprir seus rituais com segurança e não impedi-los por exemplo, de fazer suas oferendas.
Fazer uma oferenda numa encruzilhada é um direito, assim como é direito de um crente pregar em praça pública ou do católico, fazer procissões.
A polícia também não pode invadir um terreiro de Candomblé, a menos que observe os trâmites legais.
Todos tem direito a liberdade religiosa, que não atinge um grau absoluto, pois não são permitidos a nenhuma religião ou culto, atos atentatórios à lei, sob pena de responsabilidade civil e criminal.
Todos tem direito à liberdade religiosa, que não atinge um grau absoluto.
Um adepto de determinada religião por exemplo, não pode evocar inciso VI do artigo 5° da Constituição, ou seja, suas convicções religiosas para livrar-se dos crimes estipulados no artigo 208 do Código Penal.
Há que se observar o inciso VIII do artigo 5° da Constituição, que diz:
Ninguém será privado de direitos por motivos de crença religiosa ou convicção filosófica ou política, salvo se as evocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei.
O Brasil, por meio do Pacto de São José da Costa Rica, se comprometeu a respeitar o sentimento religioso, avaliando o documento que no artigo 12.1 da Convenção, diz:
Toda pessoa tem direito à liberdade de consciência e de religião.
Esse direito implica a liberdade de conservar sua religião ou suas crenças, ou de mudar de religião ou de crenças, bem como a liberdade de professar e divulgar sua religião ou suas crenças, individual ou coletivamente, tanto em público como em privado.
Devem os templos de Candomblé e seus sacerdotes começar a reivindicar os privilégios e isenções que a lei assegura aos ministros de confissão religiosa e às suas igrejas, como o direito à prisão especial, a contribuição, a Previdência Social na qualidade de sacerdote e a desobrigação de recolher alguns impostos como o IPTU.

É também importante difundir a lei n° 7.716, de 5 de janeiro de 1989,
não só entre as pessoas do Candomblé mas para toda a sociedade, especialmente entre negros que sofrem muito mais com o preconceito que, mesmo camuflado pelo mito da democracia racial, existe no Brasil.
Ninguém será privado de direitos por motivos de crença religiosa ou convicção filosófica ou política.
Isso serve para ratificar que o caminho para viver plenamente a cidadania é o da consciência, que passa, necessariamente, pelo reconhecimento das leis que asseguram os direitos de todos os cidadãos brancos ou negros, crentes ou de Candomblé, ricos ou pobres.

JOÃO CAVEIRA



João Caveira é o nome de um
exú de Umbanda
(entidade espiritual) da Quimbanda e Umbanda brasileira.
O sr. João Caveira é o exú responsável pelo encaminhamento das almas (espiritos desencarnados) que vagam nos cemitérios.
É representado por um homem carregando um
crânio humano.
É o exú que lembra às almas suas condições humanas.
Normalmente é associado ao portão do cemitério (calunga), mas sua ação dentro do mundo das almas vai mais além.
Suas manifestações mediúnicas são na maioria das vezes, violentas.
É uma entidade séria e de poucas palavras (indo diretamente ao assunto).
João Caveira pode vir através da falange do Exu Caveira, Exu Táta Caveira ou Omulú.
Em cada uma delas suas manifestações são diferentes assim como sua evolução.
Nem todos os Exús são violentos como diz a matéria abaixo.
Na maioria deles são calmos e vem só para trabalhar e ajudar a quem precisa, isso se são da linha branca e de entidade de luz que trabalham com a caridade.
Ao contrário tem casas que utilizam eles somente para o mal, mas sempre lemBrando que para cada mal que você pedir 50% do pedido de maldade volta para vc.
Aqui segue um pouco mais da história de como surigam os Exús.
Abraço para todos.
Caveira é um exu, ou seja, uma entidade que trabalha na Umbanda, através da incorporação de médiuns.
Antes de ser uma entidade, Tatá Caveira viveu na terra física, assim como todos nós.
Acreditamos que nasceu em 670 D.C. e viveu até dezembro de 698, no Egito, ou de acordo com a própria entidade, "Na minha terra sagrada, na beira do Grande Rio".
Seu nome era Próculo, de origem Romana, dado em homenagem ao chefe da Guarda Romana naquela época.
Próculo vivia em uma aldeia, fazendo parte de uma família bastante humilde.
Durante toda sua vida, batalhou para crescer e acumular riquezas, principalmente na forma de cabras, camelos e terras.
Naquela época, para ter uma mulher era necessário comprá-la do pai ou responsável, e esta era a motivação que levou Próculo a batalhar tanto pelo crescimento financeiro.
Próculo viveu de fato uma grande paixão por uma moça que fora criada junto com ele desde pequeno, como uma amiga.
Porém, sua cautela o fez acumular muita riqueza, pois não queria correr o risco de ver seu desejo de união recusado pelo pai da moça.
O destino pregou uma peça amarga em Próculo, pois seu irmão de sangue, sabendo da intenção que Próculo tinha com relação à moça, foi peça chave de uma traição muito grave.
Justamente quando Próculo conseguiu adquirir mais da metade da aldeia onde viviam, estando assim seguro que ninguém poderia oferecer maior quantia pela moça, foi apunhalado pelas costas pelo seu próprio irmão, que comprou-a horas antes.
De fato, a moça foi comprada na noite anterior à manhã que Próculo intencionava concretizar seu pedido.
Ao saber do ocorrido, Próculo ficou extremamente magoado com seu irmão, porém o respeitou pelo fato ser sangue do seu sangue.
Seu irmão, apesar de mais velho, era muito invejoso e não possuía nem metade da riqueza que Próculo havia acumulado.
A aldeia de Próculo era rica e próspera, e isto trazia muita inveja a aldeias vizinhas.
Certo dia, uma aldeia próxima, muito maior em habitantes, porém com menos riquezas, por ser afastada do Rio Nilo, começou a ter sua atenção voltada para a aldeia de Próculo.
Uma guerra teve início.
A aldeia de Próculo foi invadida repentinamente e pegou todos os habitantes de surpresa.
Estando em inferioridade numérica, foram todos mortos, restando somente 49 pessoas.
Estes 49 sobreviventes, revoltados, se uniram e partiram para a vingança, invadindo a aldeia inimiga, onde estavam mulheres e crianças.
Muitas pessoas inocentes foram mortas neste ato de raiva e ódio.
No entanto, devido à inferioridade numérica, logo todos foram cercados e capturados.
Próculo, assim como seus companheiros, foi queimado vivo.
No entanto, a dor maior que Próculo sentiu "não foi a do fogo, mas a do coração", pela traição que sofreu do próprio irmão, que agora queimava ao seu lado.
Esta foi a origem dos 49 exus da linha de Caveira, constituída por todos os homens e mulheres que naquele dia desencarnaram.
Entre os exus da linha de Caveira, existem:
Tatá Caveira, João Caveira, Caveirinha, Rosa Caveira, Dr. Caveira (7 Caveiras), Quebra-Osso, entre muitos outros.
Por motivo de respeito, não será indicado aqui qual exu da linha de Caveira foi o irmão de Tatá enquanto vivo.
Como entidade, o Chefe-de-falange Tatá Caveira é muito incompreendido e tem poucos cavalos.
São raros os médiuns que o incorporam, pois tem fama de bravo e rabugento.
No entanto, diversos médiuns incorporam exus de sua falange.
Tatá é brincalhão, ao mesmo tempo sério e austero.
Quando fala algo, o faz com firmeza e nunca na dúvida.
Tem temperamento inconstante, se apresentando ora alegre, ora nervoso, ora calmo, ora apressado, por isso é dado por muitos como louco.
No entanto, Tatá Caveira é extremamente leal e amigo, sendo até um pouco ciumento.
Fidelidade é uma de suas características mais marcantes, por isso mesmo Tatá não perdoa traição e valoriza muito a amizade verdadeira.
Considera a pior das traições a traição de um amigo.
Em muitas literaturas é criticado e são as poucas as pessoas que têm a oportunidade de conhecer a fundo Tatá Chefe-de-falange.
O cavalo demora a adquirir confiança e intimidade com este exu, pois é posto a prova o tempo todo.
No entanto, uma vez amigo de Tatá Caveira, tem-se um amigo para o resto da vida.
Nesta e em outras evoluções.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

LENDAS DE EXU



I
Exú sempre foi o mais alegre e comunicativo de todos os orixás.
Olorun, quando o criou, deu-lhe, entre outras funções, a de comunicador e elemento de ligação entre tudo o que existe.
Por isso, nas festas que se realizavam no orun (céu), ele tocava tambores e cantava, para trazer alegria e animação a todos.
Sempre foi assim, até que um dia os orixás acharam que o som dos tambores e dos cânticos estavam muito altos, e que não ficava bem tanta agitação.
Então, eles pediram a Exú, que parasse com aquela actividade barulhenta, para que a paz voltasse a reinar.
Assim foi feito, e Exú nunca mais tocou seus tambores, respeitando a vontade de todos.
Um belo dia, numa dessas festas, os orixás começaram a sentir falta da alegria que a música trazia.
As cerimônias ficavam muito mais bonitas ao som dos tambores.
Novamente, eles se reuniram e resolveram pedir a Exú que voltasse a animar as festas, pois elas estavam muito sem vida.
Exú negou-se a fazê-lo, pois havia ficado muito ofendido quando sua animação fora censurada, mas prometeu que daria essa função para a primeira pessoa que encontrasse.
Logo apareceu um homem, de nome Ogan.
Exú confiou-lhe a missão de tocar tambores e entoar cânticos para animar todas as festividades dos orixás.
E, daquele dia em diante, os homens que exercessem esse cargo seriam respeitados como verdadeiros pais e denominados Ogans.

II
EXÚ – Um Orishá Muito Polémico
Por Ìyá Sandra Medeiros Epega
Atoto arere.
Ifá fe f'oun e dake.
Orunmilá e Exú eram amigos, mas disputavam entre si o poder.
Houve uma guerra na cidade de Ajala Eremi.
Tendo isso chegado ao conhecimento de Exú, por seus seguidores que invocavam-no e pediam a sua ajuda, ele correu a Orunmilá para contar a novidade.
Orunmilá ficou curioso de saber como Exú já sabia da guerra, uma vez que a cidade era longe e parcos os recursos.
Exú, muito vaidoso, disse saber tudo, em virtude de seus poderes, e completou - "Vamos lá salvá-los".
Viajaram juntos, e chegando à Ajala Eremi, ajudaram o povo a vencer a guerra, e foram reverenciados e louvados.
Na volta, Exú disse a Orunmilá - "Você vai ver, a minha magia é maior que a sua".
Orunmilá riu, disse que seus poderes eram bem maiores, e disse também:

"Ki okunrin ma to ato rin
Ki obinrin ma to ato rin
Ki awo eni ti aso re yio rin".
"O homem fica em pé e urina andando
A mulher fica em pé e urina andando
Vamos ver a roupa de quem fica molhada primeiro".

Com essas palavras ele desafiou Exú.
Caminharam muito até que anoiteceu, e pararam em Ileto (pequena cidade baale - aldeia pobre).
Orunmilá pediu aos mais velhos pousada por uma noite para ambos.
O Rei permitiu que dormissem e determinou em que casa ficariam.
No meio da noite, estando Orunmilá dormindo, Exú acordou bruscamente.
Exu saiu para o pátio, foi ao local onde as galinhas dormiam, agarrou o galo pelos pés, torceu-lhe o pescoço, arrancou-lhe a cabeça e enfiou no bolso.
Fez uma ótima e solitária refeição com a carne e alguns inhames, pimentas, tomates e cebolas que achou nos campos, temperou tudo com óleo dendê, bebeu vinho de palma e completou com litros e litros de água fresca.
Voltando à casa, chamou Orunmilá, e disse -" Vamos embora depressa".
Orunmilá acordou estremunhado, e ainda tonto, achou que era de manhã, e seguiu com Exú pela estrada como bons amigos.
Em Ileto, assim que amanheceu, descobriram a morte do galo, a fuga dos hóspedes e o povo, revoltado, decidiu persegui-los.
Juntaram os Ode (soldados).
Correram atrás de Exú e Orunmilá e alguém lembrou que Exú usava uma roupa de búzios (símbolo de magia).
Exú sabia que o povo de Ileto e os soldados vinham em sua perseguição.
Olhava para trás e ria.
Falou a Orunmilá -"O povo vem aí, traz lanças, facas e soldados.
Mostre a força de sua magia agora".
Orunmilá, sempre muito calmo, disse a Exú -"A mim não pegam. Eu adivinho que você matou o galo e comeu-o, porque o sangue pinga de seu bolso".
E disse "A ki gbo iku a fibi oba sa".
("Não se pode ter má notícia da terra. Ela não morre".)
Depois de proferir estas palavras mágicas, Orunmilá disse a Exú:
-"Agora você dá a solução".
Exú sugeriu que subissem em uma árvore sagrada (ikin), de cuja madeira são feitos instrumentos para o culto, e esperassem para ver os Ode passarem.
Os soldados e o povo viram o sangue, e revistando a árvore acharam Exú lá em cima, junto com Orunmilá.
Alguns ficaram de guarda à árvore, enquanto outros foram buscar machados e facões para derrubá-la.
Quando começaram a cortar a árvore, Exú riu e disse a Orunmilá:
- "É agora!
Vamos cair os dois, faça a sua magia, eu faço a minha e veremos qual o poder maior".
A árvore caiu.
Orunmilá se enterrou no chão e virou água.
Exú bateu no chão e virou pedra.
O povo e os Ode procuraram e não acharam ninguém.
O lugar virou uma grande confusão, com todos gritando e se acusando mutuamente.
Os que estavam sedentos, viram a água que era Orunmilá, beberam dela e se acalmaram.
Os que estavam cansados sentaram na pedra que era Exú e ficaram agitados.
E daí para a frente, dois tipos de pessoas se criaram no mundo, os calmos e os agitados.
E todos que jogam Ifá (antigo sistema yorubá de adivinhação), têm que cultuar Exú e Orunmilá.

III
Exu foi o primeiro filho de Iemanjá e Oxalá.
Ele era muito levado e gostava de fazer brincadeiras com todo mundo.
Tantas fez que foi expulso de casa.
Saiu vagando pelo mundo, e então o país ficou na miséria, assolado por secas e epidemias.
O povo consultou Ifá, que respondeu que Exu estava zangado porque ninguém se lembrava dele nas festas; e ensinou que, para qualquer ritual dar certo, seria preciso oferecer primeiro um agrado a Exu.
Desde então, Exu recebe oferendas antes de todos, mas tem que obedecer aos outros Orixás, para não voltar a fazer tolices.

IV
Um homem rico tinha uma grande criação de galinhas.
Certa vez, chamou um pintinho muito travesso de Exu, acrescentando vários xingamentos.
Para se vingar, Exu fez com que o pinto se tornasse muito violento.
Depois que se tornou galo, ele não deixava nenhum outro macho sossegado no galinheiro: feria e matava todos os que o senhor comprava.
Com o tempo, o senhor foi perdendo a criação e ficou pobre.
Então, perguntou a um babalaô o que estava acontecendo.
O sacerdote explicou que era uma vingança de Exu e que ele precisaria fazer um ebó pedindo perdão ao Orixá.
Amedrontado, o senhor fez a oferenda necessária e o galo se tornou calmo, permitindo que ele recuperasse a produção.

V
Certa vez, dois amigos de infância, que jamais discutiam, esqueceram-se, numa segunda-feira, de fazer-Ihe as oferendas devidas para Èsù.
Foram para o campo trabalhar, cada um na sua roça.
As terras eram vizinhas, separadas apenas por um estreito canteiro.
Èsù, zangado pela negligência dos dois amigos, decidiu preparar-Ihes um golpe à sua maneira.
Ele colocou sobre a cabeça um boné pontudo que era branco do lado direito e vermelho do lado esquerdo.
Depois, seguiu o canteiro, chegando à altura dos dois trabalhadores amigos e, muito educadamente, cumprimentou-os:
-"Bom trabalho, meus amigos!"
Estes, gentilmente, responderam:
-"Bom passeio, nobre estrangeiro!"
Assim que Èsù afastou-se, o homem que trabalhava no campo à direita, falou para o seu companheiro:
-"Quem pode ser este personagem de boné branco?"
-"Seu chapéu era vermelho", respondeu o homem do campo a esquerda.
-"Não, ele era branco, de um branco de alabastro, o mais belo branco que existe!"
-"Ele era vermelho, um vermelho escarlate, de fulgor insustentável!"
-"Ele era branco, tratar-me de mentiroso?"
-"Ele era vermelho, ou pensas que sou cego?"

Cada um dos amigos tinha razão e ambos estavam furioso da desconfiança do outro.
Irritados, eles agarraram-se e começaram a bater-se até matarem-se a golpes de enxada.
Èsù estava vingado!
Isto não teria acontecido se as oferendas a Èsù não tivessem sido negligenciadas.
Pois Èsù pode ser o mais benevolente dos òrìsà se é tratado com consideração e generosidade.

VI
Conta-se que Aluman estava desesperado com uma grande seca.
Seus campos estavam secos e a chuva não caia.
As rãs choravam de tanta sede e os rios estavam cobertos de folhas mortas, caidas das árvores.
Nenhum òrìsà invocado escutou suas queixas e gemidos.
Aluman decidiu, então, oferecer a Èsù grandes pedaços de carne de bode.
Èsù comeu com apetite desta excelente oferenda.
Só que Aluman havia temperado a carne com um molho muito apimentado.
Èsù teve sede.
Uma sede tão grande que toda a água de todas as jarras que ele tinha em casa, e que tinham, em suas casas, os vizinhos, não foi suficiente para matar sua sede!
Èsù foi á torneira da chuva e abriu-a sem pena.
A chuva caiu.
Ela caiu de dia, ela caiu de noite.
Ela caiu no dia seguinte e no dia depois, sem parar.
Os campos de Aluman tornaram-se verdes.
Todos os vizinhos de Aluman cantaram sua glória:

"Joro, jara, joro Aluman,
Dono dos dendezeiros, cujos cachos são abundantes;
Joro, jara, joro Aluman,
Dono dos campos de milho, cujas espigas são pesadas!
Joro, jara, joro Aluman,
Dono dos campos de feijão, inhame e mandioca!
Joro, jara, joro Aluman!"

E as rãzinhas gargarejavam e coaxavam, e o rio corria velozmente para não transbordar!
Aluman, reconhecido, ofereceu a Èsù carne de bode com o tempero no ponto certo da pimenta.
Havia chovido bastante.
Mais, seria desastroso!
Pois, em todas as coisa, o demais é inimigo do bom.

VII
Lenda de Eshu Jelu ( Ijelu ou Ajelu )
Mandaram Eshú fazer um ebó, com o objetivo de obter fortuna rapidamente e de forma imprevista.
Depois de oferecer o sacrifício, Exú empreendeu viagem rumo a cidade de Ijelu.
Lá chegando, foi hospedar-se na casa de um morador qualquer da cidade, contrariando os costumes da época, que determinavam que qualquer estrangeiro recém chegado receberia acolhida no palácio real.
Alta madrugada, enquanto todos dormiam, Exú levantou-se sorrateiramente e ateou fogo as palhas que serviam de telhado à construção em que estava abrigado, depois do que, começou a gritar por socorro, produzindo enorme alarido, o que acordou todos os moradores da localidade.
Eshú gritava e esbravejava, afirmando que o fogo, cuja origem desconhecia, havia consumido uma enorme fortuna, que trouxera embrulhada em seus pertences, que como muitos testemunharam, foram confiados ao dono da casa.
Na verdade, ao chegar, Exú entregou ao seu hospedeiro um grande fardo, dentro do qual, segundo declaração sua, havia um grande tesouro, fato este, que foi testemunhado por enumeras pessoas do local.
Rapidamente, a notícia chegou aos ouvidos do Rei que, segundo a lei do país deveria indemnizar a vitima de todo o prejuízo ocasionado pelo sinistro.
Ao tomar conhecimento do grande valor da indemnização e ciente de não possuir meios para saldá-la, o rei encontrou, como única solução, entregar seu trono e sua coroa a Eshú, com a condição de poder continuar, com toda sua família, residindo no palácio.
Diante da proposta, Eshú aceitou imediatamente, passando a ser deste então o rei de Ijelu.

VIII
Sobre Eshú existem muitas lendas, mas esta demonstra bem o carácter irreverente de Eshú:
Eshú, sabedor de que uma rainha fora abandonada pelo seu Rei (dormindo assim em aposentos separados), procurou-a, entregou a ela uma faca e disse que se ela desejasse ter ele de volta, deveria cortar alguns fios da sua barba ao anoitecer quando o Rei dormisse.
Em seguida, foi à casa do Príncipe Herdeiro do trono, situada nos arredores do palácio e disse ao Príncipe que o Rei desejava vê-lo ao anoitecer com o seu exército.
Em seguida, foi até ao Rei e disse: "A Rainha magoada vai tentar matá-lo à noite.
Finja que está dormindo para não morrer.
E a noite veio.
O Rei deitou-se e fingiu dormir e viu depois a Rainha aproximar uma faca de sua garganta.
Ela queria apenas cortar um fio da barba do Rei, mas ele julgou que seria assassinado.
O Rei desarmou-a e ambos lutaram, fazendo grande algazarra.
O Príncipe, que chegava com os seus guerreiros, escutou gritos nos aposentos do Rei e correu para lá.
O Príncipe entrou nos aposentos e viu o Rei com a faca na mão e pensou que ele queria matar a Rainha e empunhou a sua espada.
O Rei, vendo o Príncipe entrar no palácio armado, à noite, pensou que o Príncipe queria matá-lo, gritou pelos seus guardas pessoais e houve uma grande luta, seguida de um massacre generalizado.

IX
Conta-nos uma lenda, que Òsùn queria muito aprender os segredos e mistérios da arte da adivinhação, para tanto, foi procurar Èsù, para aprender os princípios de tal dom.
Èsù, muito matreiro, disse a Òsùn que lhe ensinaria os segredos da adivinhação, mas para tanto, ficaria Òsùn sobre os domínios de Èsù durante sete anos, passando, lavando e arrumando a casa do mesmo.
Em troca, ele a ensinaria.
E, assim foi feito.
Durante sete anos, Òsùn foi aprendendo a arte da adivinhação que Èsù lhe ensinava e consequentemente, cumprindo seu acordo de ajudar nos afazeres domésticos na casa de Èsù.
Findando os sete anos, Òsùn e Èsù, tinham se apegado bastante pela convivência em comum, e Òsùn resolveu ficar em companhia desse Òrìsà.
Em um belo dia, Sàngó que passava pelas propriedades de Èsù, avistou aquela linda donzela que penteava seus lindos cabelos na margem de um rio e, de pronto agrado, foi declarar sua grande admiração para com Òsùn.
Foi-se a tal ponto que Sàngó, viu-se completamente apaixonado por aquela linda mulher, e perguntou se não gostaria de morar em sua companhia no seu lindo castelo na cidade de Oyó.
Òsùn rejeitou o convite, pois lhe fazia muito bem a companhia de Èsù.
Sàngó então, irado por ter sido contrariado, sequestrou Òsùn e levou-a em sua companhia, aprisionando-a na masmorra de seu castelo.
Èsù, logo de imediato sentiu a falta de sua companheira e saiu a procurar, por todas as regiões, pelos quatro cantos do mundo, sua doce pupila de anos de convivência.
Chegando nas terras de Sàngó, Èsù foi surpreendido por um canto triste e melancólico que vinha da direcção do palácio do Rei de Oyó, da mais alta torre.
Lá estava Òsùn, triste e a chorar por sua prisão e permanência na cidade do Rei.
Èsù, esperto e matreiro, procurou a ajuda de Òrùnmílá, que de pronto agrado lhe cedeu uma poção de transformação para Òsùn fugir dos domínios de Sàngó.
Èsù, através da magia, pôde fazer chegar às mãos de sua companheira a tal poção.
Òsùn tomou de um só gole a poção mágica e transformou-se numa linda pomba dourada, que voou e pode então retornar em companhia de Èsù para a sua morada.

X
Como Èsù tornou-se Òsijè-Ebó
Essa história revela o nascimento do 17o. Odù, como e de onde nasceu Òsetùwá, em decorrência, veremos a analise através de como Èsù se tornou Èsù Òsijè-Ebó, o transportador e encarregado de encaminhar as oferendas entre a terra e o òrun.
Quem deveria consultar o porta-voz-principal-do-culto-de-Ifá; a nuvem está pendurada por cima da terra...
Bábálàwó dos tempos imemoriais;
Os "siris" estão no rio; a marca do dedo requer Yèréòsùn (pó sagrado de Ifá).
Estes foram os Bábálàwó que jogaram Ifá para os quatrocentos Irúnmolè, senhores do lado direito, e jogaram Ifá para os duzentos malè, senhores do lado esquerdo.
E jogaram Ifá para Òsun, que tem uma coroa toda trabalhada de contas, no dia em que ele (Òsetùá) veio a ser o décimo sétimo dos Irùnmolè que vieram ao mundo, quando Òlódumàrè enviou os òrìsà, os dezesseis, ao mundo, para que viessem criar e estabelecer a terra.
E vieram verdadeiramente nessa época.
As coisas que Òlódumàrè lhes ensinou nos espaços do òrun constituíram nos pílares de fundação que sustentam a terra para a existência de todos os seres humanos e de todos os ebora.
Olódumàrè lhes ensinou que quando alcançassem a terra, deveriam abrir uma clareira na floresta, consagrando-a de Orò, o Igbó Orò.
Deveriam abrir uma clareira na floresta, consagrando-a a Eégún, o Igbó Eégún, que seria chamado Igbó Òpá.
Disse que deveriam abrir uma clareira na floresta consagrando-a a Odù Ifá, o Igbó Odù, onde iriam consultar o oráculo a respeito das pessoas.
Disse ele que deveriam abrir um caminho para os Òrìsà e chamar esse lugar de Igbó Òrìsà, floresta para adorar os òrìsà.
Olódumàrè lhes ensinou a maneira como deveriam resolver os problemas de fundação (assentamento) e adoração dos ojóbo (lugares de adoração) e como fariam as oferendas para que não houvesse morte prematura, nem esterilidade, nem infecundidade, que não houvesse perda, nem vida paupérrima, não houvesse nada de tudo isso sobre a terra.
Para que as doenças sem razão não lhes sobrevivessem, que nenhuma maldição caísse sobre eles, que a destruição e a desgraça não se abatessem sobre eles.
Olódumàrè ensinou aos dezasseis òrìsà o que eles deveriam realizar para evitar todas as coisas.
Ele os delegou e enviou à terra, a fim de executarem tudo isso.
Quando vieram ao òde àiyé, a terra, fundaram fielmente na floresta o lugar de adoração de Orò, o Igbá Orò. Fundaram na floresta o lugar de adoração de Eégún. Fundaram na floresta o lugar de adoração de Ifá que chamamos Igbódù.
Também abriram um caminho para os òrìsà, que chamamos igbóòòsa.
Executaram todos esses programas visando a ordem.
Se alguém estava doente, ele ia consultar Ifá ao pé de Òrúnmìlá.
Se acontecia que Eégún poderia salvá-lo, dir-lho-iam.
Seria conduzido ao lugar de adoração na floresta de Eégún ao Igbó-Igbàlè, para que ele fizesse uma oferenda para Egúngún.
Talvez que um de seus ancestrais devesse ser invocado como Eégún, para que o adorasse, a fim de que esse Eégún o protegesse.
Se havia uma mulher estéril, Ifá seria consultado, a respeito dela, a fim de que Orúnmìlà pudesse indicar-lhe a decoação de Òsun, que ela deveria tomar.
Se havia alguém que estava levando uma vida de miséria, Orúnmìlà consultaria Ifá, a respeito dele.
Poderia ser que Orò estivesse associado à sua própria entidade criadora.
Orúnmìlà diria a essa pessoa que é a Orò que ela devia adorar.
E ela seria conduzida à floresta de Orò.
Eles seguiram essa prática durante muito tempo.
Enquanto realizavam as diversas oferendas, eles não chamavam Òsun.
Cada vez que iam à floresta de Eégún, ou à floresta de Orò, ou à floresta de Ifá, ou à floresta de Òòsà, a seu retorno, os animais que eles tinham abatido, fossem cabras, fossem carneiros, fossem ovelhas, fossem aves, entregavam-nos a Òsun para que ela os cozinhasse.
Preveniram-na que quando ela acabasse de preparar os alimentos, não devia comer nenhum pouco, porque deviam ser levados aos Malè, lá onde as oferendas são feitas.
Òsun começou a usar o poder das mães ancestrais - àse Iyá-mi - e a estender sobre tudo o que ela fazia esse poder de Iyá-mi-Àjé, que tornava tudo inútil.
Se se predissesse a alguém que ele ou ela não fosse morrer, essa pessoa não deixava de morrer.
Se fosse proclamado que uma pessoa não sobreviveria, a pessoa sobreviveria.
Se se previsse que uma pessoa daria à luz um filho, a pessoa tornava-se estéril.
Um doente a quem se dissesse que ele ficaria curado não seria jamais aliviado de sua doença.
Essas coisas ultrapassavam seu entendimento, porque o poder de Olódumàre jamais tinha falhado.
Tudo que Olódumàre lhes havia ensinado eles o aplicavam, mas nada dava resultado.
Que era preciso fazer?
Quando se congregaram numa reunião, Orúnmìlà sugeriu que, já que eles eram incapazes de compreender o que se estava passando por seus próprios conhecimentos, não havia outra solução senão consultar Ifá novamente.
Em consequência, Orúnmìlà trouxe seu instrumento adivinatório, depois consultou Ifá.
Contemplou longamente a figura do Odù que apareceu e chamou esse Odù pelo nome de òsetùá.
Ele olhou em todos os sentidos.
A partir do resultado definitivo de sua leitura, Orúnmìlà transmitiu a resposta a todos os outros Odù-àgbà.
Estavam todos reunidos e concordaram que não havia outra solução para todos eles, os òrìsàs-irúnmàlè, senão encontrar um homem sábio e instruído que podesse ser enviado a Olódumàrè, para que mandasse a solução do problema e o tipo de trabalho que devia ser feito para o restabelecimento da ordem, a fim de que as coisas voltassem a normalizar-se, e nada mais interferisse em seus trabalhos.
Ele, Orúnmìlà, deveria ir até a Olódumàrè.
Orúnmìlà ergueu-se.
Serviu-se de seus conhecimentos para utilizar a pimenta, serviu-se de sua sabedoria para tomar nozes de obi, despregou seu òdùn (tecido de ráfia) e o prendeu no seu ombro, puxou seu cajado do solo, um forte redemoinho o levou, e ele partiu até aos vastos espaços do outro mundo para encontrar Olódumàrè.
Foi lá que Orúnmìlà reencontrou Èsù Òdàrà.
Èsù já estava com Olódumàrè.
Èsù fazia sua narração a Olódùmarè.
Explicava que aquilo que estava estragando o trabalho deles na terra era o fato de eles não terem convidado a pessoa que constitui a décima sétima entre eles.
Por essa razão, ela estragava tudo, Olódumàrè compreendeu.
Assim que Orúnmìlà chegou, apresentou seus agravos a Olódumàrè.
Então Olódumàrè lhe disse que deveria ir e chamar a décima sétima pessoa entre eles e levá-la a participar de todos os sacrifícios a serem oferecidos.
Porque, além disso, não havia nenhum outro conhecimento que Ele lhes pudesse ensinar senão as coisas que Ele já lhes havia dito.
Quando Orúnmìlà voltou à terra, reuniu todos os òrìsà e lhes transmitiu o resultado de sua viagem.
Chamaram Òsun e lhe disseram que ela deveria segui-los por todos os lugares onde deveriam oferecer sacrifícios.
Mesmo na floresta de Eégún.
Òsun recusou-se: ela jamais iria com eles.
Começaram a suplicar a Òsun e ficaram prostrados um longo tempo.
Todos começaram a homenageá-la e a reverenciá-la.
Òsun os maltratava e abusava deles.
Ela maltratava Òrìsànlá, maltratava Ògún, maltratava Orúnmìlà, maltratava Òsányín, maltratava Orànje, ela continuava a maltratar todo mundo.
Era o sétimo dia, quando Òsun se apaziguou.
Então eles disseram que viesse.
Ela replicou que jamais iria, disse, entretanto, que era possível fazer uma outra coisa já que todos estavam fartos dessa história.
Disse que se tratava da criança que levava no seu ventre.
Somente se eles soubessem como fazer para que ela desse à luz uma criança do sexo masculino, isso significaria que ela permitiria então que ele a substituísse e fosse com eles.
Se ela desse à luz uma criança do sexo feminino, podiam estar certos que esta questão não se apagaria em sua mente.
Ficariam aí, pedaços, pedaços, pedaços.
E eles deveriam saber com certeza que esta terra pereceria; deveriam criar uma nova.
Mas se ela desse à luz um filho homem, isso queria dizer que, evidentemente, o próprio Olórun os tinha ajudado.
Assim apelou-se para Òrìsàlá e para todos os outros òrìsà para saber o que deveriam fazer para que a criança fosse do sexo masculino.
Disseram que não havia outra solução a não ser que todos utilizassem o poder - àse - que Olódumàrè tinha dado a cada um deles; cada dia repetidamente deveriam vir, para que a criança nascesse do sexo masculino.
Todos os dias iam colocar seu àse - seu poder - sobre a cabeça de Òsun, dizendo o que segue:

"Você Òsun!
Homem ele deverá nascer, a criança que você traz em si!"
Todos respondiam "assim seja", dizendo "tó!" acima de sua cabeça...
Assim fizeram todos os dias, até que chegou o dia do parto de Òsun.
Ela lavou a criança.
Disseram que ela deveria permitir-lhes vê-la.
Ela respondeu "não antes de nove dias".
Quando chegou o nono dia, ela os convocou a todos.
Esse era o dia da cerimónia do nome, da qual se originaram todas as cerimónias de dar o nome.
Mostrou-lhes a criança, e a pôs nas mãos de Òrìsàálá.
Quando Òrìsàálá olhou atentamente a criança e viu que era um menino, gritou:
"Músò"...! (hurra...!).
Todos os outros repetiram "Músò".....!
Cada um carregou a criança, depois o abençoaram.
Disseram "somos gratos por esta criança ser um menino".
Disseram: "Que tipo de nome lhe daremos?".
Òrìsàálá disse: "Vocês todos sabem muito bem que cada dia abençoamos sua mãe com nosso poder para que ela pudesse dar à luz uma criança do sexo masculino, e essa criança deveria justamente chamar-se À-S-E-T-Ù-W-Á (o poder trouxe ela a nós)"
Disseram: "Acaso você não sabe que foi o poder do àse, que colocamos nela, que forçou essa criança a vir ao mundo, mesmo se antes ela não queria vir à terra sob a forma de uma criança do sexo masculino?
Foi nosso poder que a trouxe à terra".
Eis por que chamaram a criança de Àsetùwà.
Quando chegou o tempo, Orúnmìlà consultou o oráculo Ifá acerca da criança, porque todos devem conhecer sua origem e destino, colheram o instrumento de Ifá para consultá-lo.
Eles o manipularam e o adoraram.
Era chegado o momento de consultar Ifá a respeito dele, para saberem qual era seu Odù, para que o pudessem iniciar no culto de Ifá.
Levaram-no à floresta de Ifá, que chamamos Igbódù, onde Ifá revelaria que Òsè e Òtùá eram seu Odù.
Este foi o resultado que ele deu a respeito da criança.
Orúnmìlà disse: "a criança que Òsè e Òtùá fizeram nascer, que antes chamamos de Àsetùwá", disse, "chamemo-la de Òsètùá".
Foi por isso que chamaram a criança com o nome do Odù de Ifá que lhe deu nascimento, Òsètùá.
Àsetùá era o nome que ele trazia anteriormente.
Assim, a criança participou do grupo dos outros Odù, ao ponto de ir com eles a todos os lugares onde se faziam oferendas na terra.
Foi assim que todas as coisas que Olódùmàrè lhes tinha ensinado deixaram de ser corrompidas.
Cada vez que proclamavam que as pessoas não morreriam, elas realmente sobreviviam e não morriam.
Se diziam que as pessoas seriam ricas, elas tornavam-se realmente ricas.
Se diziam que a mulher estéril conceberia, ela realmente dava à luz.
A própria Òsun deu a essa criança um nome nesse dia.
Disse ela: "Osó a gerou (significando que a criança era filho do poder mágico), porque ela mesma era uma ajé e a criança que ela gerou é um filho homem.
Disse ela: "Akin Osò", (Akin Osò: poderoso mago; homem bravo dotado de um grande poder sobrenatural) eis o que a criança será!
É por isso que eles chamaram Òsetùá de Akin Osò, entre todos os Odù Ifá e entre os dezasseis òrìsà mais anciãos.
Depois eles disseram que em qualquer lugar onde os maiores se reunissem, seria compulsório que a criança fosse um deles.
Se não pudessem encontrar o décimo sétimo membro, não poderiam chegar a nenhuma decisão, e se dessem um conselho, não poderiam ratifica-lo.
Finalmente, aconteceu!
Sobreveio uma seca na terra.
Tudo estava seco!
Não havia nem orvalho!
Fazia três anos que tinha chovido pela última vez.
O mundo entrou em decadência.
Foi então que eles voltaram a consultar Ifá, Ifà àjàlàiyé. (aquele que administra a terra) Quando Orúnmìlà consultou Ifá àjàlàiyé, disse que deveriam fazer uma oferenda, um sacrifício, e preparar a oferenda de maneira que chegasse a Olódùmàrè, para que Olódùmàrè pudesse ter piedade da terra, e assim não virasse as costas à terra e se ocupasse dela para eles.
Porque Olódùmàrè não se ocupava mais da terra.
Se isso continuasse, a destruição era inevitável, era iminente.
Somente se pudessem fazer a oferenda, Olódumàrè teria sempre misericórdia deles.
Ele se lembraria deles e zelaria pelo mundo.
Foi assim que prepararam a oferenda.
Eles colocaram, uma cabra, uma ovelha, um cachorro e uma galinha, um pombo, uma preá, um peixe, um ser humano e um touro selvagem, um pássaro da floresta, um pássaro da savana, um animal doméstico.
Todas essas oferendas, e ainda dezesseis pequenas quartinhas cheias de azeite de dendê que eles juntaram nesse dia.
E ovos de galinha, e dezesseis pedaços de pano branco puro.
Prepararam as oferendas apropriadas usando folhas de Ifá, que toda oferenda deve conter.
Fizeram um grande carrego com todas as coisas.
Disseram então, que o próprio Èjì-Ogbè deveria levar essa oferenda a Olódumàrè. Ele levou a oferenda até as portas do òrun, mas elas não lhe foram abertas.
Èjì-Ogbè voltou à terra.
No segundo dia Òyèkú-Méji a carregou, ele voltou.
Não lhe abriram as portas.
Ìwòrí-Méji levou a oferenda, assim fizeram Òdi-Méji; Ìrosùn-Méji; Òwórin-Méji; Òbàrà-Méji; Òkànràn-Méji; Ogúndá-Méji; Òsá-Méji; Ìká-Méji; Òtúrúpòn-Méji; Òtúá-Méji; Ìrètè-Méji; Òsè-Méji; Òfún-Méji.
Mas não puderam passar, Olórun não abria as portas.
Assim decidiram que o décimo sétimo entre eles deveria ir e experimentar o seu poder, antes que tivessem que reconhecer que não tinham mais nenhum poder.
Foi assim que Òsetùá foi visitar certos Babaláwo, para que eles consultassem o oráculo para ele.
Esses Babaláwo traziam os nomes de Vendedor-de-azeite-de-dendê e Comprador-de-azeite-de-dendê.
Ambos esfregaram seus dedos com pedaços de cabaça.
Jogaram Ifá para Akin Osò, o filho de Enìnàre (aquela que foi colocada na senda do bem) no dia em que ele conseguiu levar a oferenda ao poderoso òrun.
Disseram que ele deveria fazer uma oferenda; disseram, quando ele acabasse de fazer a oferenda, disseram, no lugar a respeito do qual ele estava consultando Ifá, disseram, ali, ele seria coberto de honras, disseram, sucederá que a posição que ele ali alcançasse, disseram, essa posição seria para sempre e não desapareceria jamais.
Disseram, as honras que ele ali receberia, disseram, o respeito, seriam intermináveis.
Disseram: "Você verá uma anciã no seu caminho", disseram, "faça-lhe o bem".
Assim, quando Òsetùá acabou de preparar a oferenda, seis pombos, seis galinhas com seis centavos e quando estava em seu caminho, ele encontrou uma anciã.
Ele carregava a oferenda no caminho que levaria a Èsù, quando encontrou essa anciã na sua rota.
Essa anciã era da época em que a existência se originou.
Disse: "Akin Osò! à casa de quem vai você hoje?
"Disse: "eu ouvi rumores a respeito de todos vocês na casa de Olófin, que os dezesseis Odù mais idosos levaram uma oferenda ao poderoso òrun sem sucesso".

Disse: "assim seja".
Disse: "é sua vez hoje?''
Disse: "é minha vez".
Disse: "tomou alimentos hoje?"
Respondeu ele: "eu tomei alimentos".
Disse ela "quando você chegar a seu sitio, diga-lhes que você não irá hoje".
Disse ela: "Esses seis centavos que você me deu", Disse: "há três dias não tinha dinheiro para comprar comida"
Disse: "diga-lhes que você não irá hoje".
Disse: "quando chegar amanhã, você não deve comer, você não deve beber antes de chegar ali".
Disse: "você deve levar a oferenda".
Disse: "todos esses que ali foram, comeram da comida da terra, essa é a razão por que Olórun não lhes abriu a porta!"
Quando Òsetùá voltou a casa de Oba Àjàlàiyè, todos os Odù Ifá estavam reunidos lá.
Disseram: "você deve estar pronto agora, é sua vez hoje de levar a oferenda ao òrun, talvez a porta seja aberta para você!
"Disse ele que estaria pronto no dia seguinte, porque não tinha sido avisado na véspera.
Quando chegou o dia seguinte, Òsetùá, foi encontrar Èsù e lhe perguntou o que deveria fazer.
Èsù respondeu: "Como!
Jamais pensei que você viria me avisar antes de partir".
Disse ele: "isso vai acabar hoje, eles lhe abrirão a porta!
" Perguntou ele: "Tomou algum alimento?
"Òsetùá lhe respondeu que uma anciã lhe tinha dito na véspera que ele não devia comer absolutamente nada.
Então Òsetùá e Èsù puseram-se a caminho.
Partiram em direcção aos portões do òrun.
Quando chegaram lá, as portas já se encontravam abertas.
Quando levaram a oferenda a Olódùmarè e Ele examinou.
Olòdumarè disse: "Haaa! Você viu qual foi o último dia que choveu na terra?!
Eu me pergunto se o mundo não foi completamente destruído. Que pode ser encontrado lá?
"Òsetùá não podia abrir a boca para dizer qualquer coisa.
Olódùmarè lhe deu alguns "feixes" de chuva.
Reuniu, como outrora, as coisas de valor do òrun, todas as coisas necessárias para a sobrevivência do mundo, e deu-lhas.
Disse que ele, Òsetùá, deveria retornar.
Quando deixaram a morada de Olódumarè, eis que Òsetùá perdeu um dos "feixes" de chuva.
Então a chuva começou a cair sobre a terra.
Choveu, choveu, choveu, choveu....
Quando Òsetùá voltou ao mundo, em primeiro lugar foi ver Quiabo.
Quiabo tinha produzido vinte sementes.
Quiabo que não tinha nem duas folhas, um outro não tinha mesmo nenhuma folha em seus ramos.
Voltou-se em direção à casa do Quiabo escarlate, Ilá Ìròkò tinha produzido trinta sementes.
Quando chegou a casa de Yáyáá, esse havia produzido cinquenta sementes.
Foi então até à casa da palmeira de folhas exuberantes, que se encontrava na margem do rio Awónrin Mogún.
A palmeira tinha dado nascimento a dezesseis rebentos.
Depois que a palmeira deu nascimento a dezasseis rebentos ele voltou à casa de Oba Àjàlàiyé.
Àse se expandia e se estendia sobre a terra.
Sémen convertia-se em filhos, homens em seu leito de sofrimento se levantavam, e todo o mundo tornou-se aprazível, tornou-se poderoso.
As novas colheitas eram trazidas dos plantios.
O inhame brotava, o milho amadurecia, a chuva continuava a cair, todos os rios transbordavam, todo mundo era feliz.
Quando Òsetùá chegou, carregaram-no para montar num cavalo (signo de realeza: só os mais poderosos podem-se permitir a criar ou montar cavalos em País Yorùbá).
Estavam mesmo a ponto de levantar o cavalo do chão para mostrar até que ponto as pessoas estavam ricas e felizes.
Estavam de tal forma contentes com ele, que o cobriram de presentes, os que estavam em sua direita os que estavam em sua esquerda.
Começaram a saudar Òsetùá: "Você é o único que conseguiu levar a oferenda ao òrun, a oferenda que você levou ao outro mundo era poderosa!
Disseram, "sem hesitação, rápido, aceite meu dinheiro e ajude-me a transportar minha oferenda ao òrun! Òsetùá! Aceite rápido! Òsetùá aceite minha oferenda!" Todos os presentes que Òsetùá recebeu, os deu todos a Èsù Òdàrà.
Quando os deu a Èsù, Èsù disse: "Como!
"Há tanto tempo ele entregava os sacrifícios, e não houve ninguém para retribuir-lhe a gentileza.
"Você Òsetùá! Todos os sacrifícios que eles fizerem sobre a terra, se não os entregarem primeiro a você, para que você possa trazer a mim, farei que as oferendas não sejam mais aceitáveis".
Eis a razão pela qual sempre que os Babaláwo fazem sacrifícios, qualquer que seja o Odù Ifá que apareça e qualquer que seja a questão, devem invocar Òsetùá para que envie as oferendas a Èsù.
Porque é só de sua mão que Èsù aceitará as oferendas para levá-las ao òrun. Porque quando Èsù mesmo recebia os sacrifícios das pessoas da terra e os entregava no lugar onde as oferendas são aceitas, eles não demonstravam nenhum reconhecimento pelo que ele fazia por todos até o dia em que Òsetùá teve de carregar o sacrifício e Èsù foi abrir o caminho apropriado para o òrun, para alcançar a morada de Olódumàrè.
Quando se abriram as portas para ele.
A qualidade de gentileza que Èsù recebeu de Òsetùá era realmente muito valiosa para ele (Èsù).
Então ele e Òsetùá decidiram combinar um acordo pelo qual todas as oferendas que deveriam ser feitas deveriam ser-lhe enviadas por intermédio de Òsetùá.
Foi assim que Òsetùá converteu-se no entregador de oferendas para Èsù.
Èsù Òdàrà, foi assim que ele se converteu em O portador de oferendas para Olódumàrè, Èsù Òsijé-Ebó, no poderoso òrun.
É assim como este Itan (verso) Ifá explica, a respeito de Èsù e Òsetùá.

XI
"Exu, filho primogénito de Iemanjá com Orunmilá, o deus da adivinhação e irmão de Ogum, Xangô e Oxóssi, era voraz e insaciável.
Conseguiu comer todos animais da aldeia em que vivia.
Depois disso, passou a comer as árvores, os pastos, tudo que via até chegar ao mar.
Orunmilá previu então que Exu não pararia e acabaria comendo os homens, e tudo que visse pela frente, chegando mesmo a comer o céu.
Ordenou então a Ogum que contivesse o irmão Exu a qualquer custo.
Para conseguir isto, Ogum foi obrigado a matar Exu, a fim de preservar a terra criada e os seres humanos.
Mas mesmo depois da morte de Exu, a natureza, os pastos, as árvores, os rios, tudo permaneceu ressecado e sem vida, doente, morrendo.
Um babalaô (representante de Orunmilá na terra) alertou Orunmilá de que o espírito de Exu sentia fome e desejava ser saciado, ameaçando provocar a discórdia entre os povos como vingança pelo que Orunmilá e Ogum haviam feito. Orunmilá determinou então que em toda e qualquer oferenda que fosse feita pelos homens a um orixá, houvesse uma parte em homenagem a Exu, e que esta parte seria anterior a qualquer outra, para que se mantivesse sempre satisfeito e assim possibilitasse a concórdia".

XII
Filho de Oxalá com Yemanjá e irmão gémeo de Ogum, Elegbará sempre aprontava para chamar a atenção, devido aos seus ciúmes.
Destemido, valente e brincalhão, adorava se envolver em tudo o que acontecia na Terra.
Devido à sua imensa curiosidade e vontade de viver, ele andou pelos quatro cantos do mundo, buscando descobrir todos os segredos e mistérios que envolviam a nosso planeta.
Elegbará era um orixá que ao mesmo tempo que era amado, era muito temido, pois já intimidava a todos com seus olhos, que eram duas bolas de fogo.
Ao contrário de alguns orixás que ansiavam em ter um reino, fundando nações, ele queria o mundo todo, por isto saía pelas estradas, vivendo aventuras e angariando adoradores em todas as tribos que visitava.
Elegbará é aquele que vive no plano intermediário entre o Orum e o Aiyê.
Ele é o protector dos aventureiros, jogadores e todos aqueles que gostam de viver.

XIII
CONTOS
O Teste de Ifá
Eleg, cafião de extrema curiosidade, vivia a andar pela Terra, tentando descobrir todos os segredos e mistérios que existiam no planeta.
Em nome desta ânsia do saber, pediu a seu irmão gémeo, Ogun, que cuidasse de sua tribo.
Este, no entanto, recusou-se, argumentando que também não dava a devida atenção à sua própria tribo.
Por fim os dois deixaram suas tribos sob os cuidados de sua mãe, Yemanjá, pois ela sempre dava atenção a quem quer que fosse...
O sol estava no ponto mais alto do céu, fustigando a vegetação, enquanto uma leve e quente brisa soprava o cheiro da mata quase seca.
A cada passo, Eleg podia sentir o chão seco e a poeira colar em seus calcanhares suados, enquanto pensava em que caminho tomaria, para encontrar algo que saciasse sua sede de conhecimento.
Embora parecesse absorto em suas divagações, estava sempre alerta a tudo o que acontecia à sua volta, tanto que podia ouvir o bater das asas de uma borboleta, ou o abrir e fechar dos olhos de um macaco à longa distância e distinguir os sons de tal forma, que podia prestar atenção a tudo.
Devido a esta sua capacidade, todos o comparavam ao vento, dizendo que ele estava em todos os lugares.
Com sua apurada audição, ele sentiu a aproximação de uma desembestada manada de rinocerontes ao longe.
Isto se transformou em uma distracção, pois acompanhava com os olhos a corrida desorientada dos bichos que, por onde passavam, espantavam pássaros, derrubavam árvores e atropelavam outros animais.
De repente a manada virou-se em sua direcção e ele, sem querer influir no arbítrio dos rinocerontes, decidiu sair de seu caminho.
Num salto rápido alcançou o topo de uma grande pedra que estava ali perto, saindo da frente dos animais que levantaram uma imensa nuvem de poeira, que o deixaram sem visão por um instante.
Do alto da rocha, assim que se dissipou a nuvem poeirenta, ele divisou ao longe, na vasta savana, um ancião deitado à sombra de um arbusto, parecendo estar dormindo, dada sua inércia.
Não precisou pensar muito para ver que a manada estava na direção do pobre velho, que poderia machucar-se muito.
Vendo aquilo, Eleg sentiu-se condoído, não lhe agradava a idéia de que alguém pudesse ter um fim tão trágico.
Tentando alertar o ancião, juntou todo o ar que seu pulmão pudesse suportar e gritou.
No entanto o velho nem sequer se mexeu.
Sem atinar se o barulho da manada abafara o seu berro, pensou que o homem pudesse estar ali desmaiado ou doente.
Eleg sentiu em seu ser que deveria ajudá-lo.
Usando de sua fantástica velocidade, ele correu pela savana e, quando alcançou a manada, pulou e andou por sobre o lombo dos rinocerontes num malabarismo fantástico, vencendo um a um.
Como tinha o poder de encantar qualquer animal, destemido, ele pulou à frente da manada, tomou uma distância segura, ergueu as mãos ao céu num gesto magistral e exalou todo seu poder.
Um a um os animais paravam, deitavam-se e caiam em um profundo sono.
Toda savana testemunhou um inesquecível espectáculo, tendo como produto final, o que parecia ser um imenso tapete de rinocerontes.
Tal foi a força do encanto, que fez calar tudo ao redor.
Se uma mosca houvera passado por ali, com certeza cairia desfalecida pelo chão árido.
Depois de afastar o perigo, Eleg, cansado pelo grande desprendimento de energia, virou-se e andou em direcção ao ancião para ver o que acontecera.
Quando estava chegando perto, pôde ver o velho levantar-se, tirando o pó das rotas vestes.
Era um ser curvado, de movimentos lentos, que se apoiava num carcomido cajado.
Com os olhos quase cobertos pelas pálpebras, fitou seu benfeitor com candura e um sorriso trémulo, curvando-se em sinal de agradecimento.
O viril cafião pensou que era algum tribal que fora abandonado à sorte pelos seus patrícios.
Curioso Eleg indignado indagou:
- Quem é você?
O que faz aí, bem à frente de uma desembestada manada, preste a ser demolido por completo?
- Quer saber quem sou?
Perguntou o velho sorridente, mostrando apenas dois dentes na boca, e caiu no chão sobre si, cobrindo-se com seus trapos, parecendo querer esconder-se.
De repente, uma imensa luz despedaçou os trapos como se fossem de vidro.
Neste momento surgiu à frente do cafião um ser que brilhava como o Sol, que chegou a ofuscar seus olhos de fogo.
Quando se acostumou com o brilho, ele viu que se tratava de Ifá, um ser de luz, enviado de Olorum na Terra, encarregado de ouvir a todos aqueles que buscam ajuda, detentor de segredos e mistérios.
Perplexo, Eleg perguntou:
- O que aconteceu, para você, um orixá, materializado como um velho, estar caído à sombra de um arbusto, esperando ser pisoteado pelos rinocerontes - neste momento o cafião percebeu que não estava na savana, mas numa floresta à beira de um rio, o ar era húmido e com um maravilhoso cheiro de verde.
O carcomido cajado cintilava e tinha na ponta uma reluzente bola de cristal, que rodava sem parar em volta de seu próprio eixo.
Ela era como a íris do grande olho que se formou no ponto mais alto do cajado.
Ifá com voz solene, que parecia ecoar pela floresta, pacientemente explicou:
- Isto tudo se tratava de um teste, pois, entre os orixás corre a história de que você não era capaz de ajudar ninguém, sem querer algo em troca, uma vez que só pensava em si mesmo e em suas descobertas.
Mas vejo que todos estão errados, e hoje vi com meus próprios olhos que a bondade pode ser despertada em você, uma vez que correu em auxílio de um velho pobre e aparentemente sem nada para dar em troca.
Frente a isto, quero lhe propor o seguinte: como sei da sua curiosidade, eu lhe darei um modo de saber o presente, o passado e o futuro - Ifá debruçou-se sobre o rio, pegou dentre as águas um punhado de conchas e prosseguiu - tome, estes são meus olhos, dou-lhe estes búzios, um jogo através do qual saberá tudo o que ocorre pelas tribos, com a condição de ajudar a todos que precisem de seu auxílio.
- Eu aceito seu presente - Eleg pegou das mãos de Ifá as conchas, enquanto as duas bolas de fogo, seus olhos, brilhavam como nunca, parecendo estarem hipnotizados, e continuou - embora não possa afirmar que correrei atrás de ninguém para ajudar, prometo auxiliar a todos que a mim vierem.
Assim que terminou de falar, ele levantou os olhos e não viu nem floresta com rio, nem o ser de luz, que havia desaparecido como se tivesse evaporado no ar, encontrava-se à sombra de um arbusto no meio da seca savana.
Eleg sentiu um misto de êxtase e torpor, ao constatar que seu esforço não fora em vão e ao ver que um sentimento tão simples pudesse lhe render tão precioso presente.
Essas sensações cruzaram com ele todo o caminho de volta para sua gruta, onde guardou e sempre consultava seu jogo, para saber os acontecimentos e fofocas de todas tribos, procurando manter em segredo seu valioso presente.
Eleg Descobre o Ouro
Eleg nunca gostou de ficar parado num só lugar, seu prazer era andar pelas tribos, chamar a atenção de todos, contando suas aventuras (sempre aumentando um pouquinho) e gabando-se por suas descobertas.
Muitas vezes causava intrigas, fazendo o leva-e-traz, pois tinha acesso livre a todos os reinos.
Embora fosse brincalhão (deleitava-se ao pregar uma peça em alguém), gostava de estar sempre bem com todos, pois era muito político, fazia de tudo para agradar.
Muitos o estimavam, era o orixá com maior número de adoradores, ele conquistava a admiração de todos, fosse com suas previsões, dadas pelo seu jogo de búzios, fosse com uma boa conversa: falava do que sabia com eloquência, e do que não sabia, sofismava com elegância, quando era surpreendido num assunto que pouco sabia, mudava de assunto tão rapidamente que ninguém percebia.
Sua chegada nas tribos era motivo de festa, as crianças saiam saltitantes de moradia em moradia, anunciando entre palmas e gritos.
As pessoas se atropelavam e o circundavam, tentando tocá-lo.
Quando ele parava no meio da aldeia, todos se sentavam a sua volta, ouvindo-o contar as notícias e suas peripécias, que provocam risos e veneração.
Eleg era sempre portador de uma novidade, trazendo sob suas vestes algo inusitado, curiosidades que arrancavam urros de espanto dos espectadores.
Quando percebia que as pessoas se cansavam de seus pertences e suas histórias e não lhe davam a devida atenção, ou ele aprontava uma pilhéria, ou entediava-se e ia embora, procurando obter a esperada consideração em outra tribo.
Numa dessas visitas a uma tribo, enquanto Eleg contava suas aventuras com maestria, um forte tremor de terra fez com que todos os espectadores debandassem entre gritos desesperados, deixando o narrador sozinho no meio da aldeia.
Após o rápido terremoto, o silêncio era tão grande que se podia ouvir o pensamento do cafião.
Passou por sua mente a vontade de descobrir o que sucedera.
Era Odudua, a mãe natureza, demonstrando sua ira, devido à grande devastação que ocorrera numa disputa entre tribos, onde uma botou fogo na vegetação da outra, em busca de enfraquecimento do inimigo.
O incêndio atingiu grande parte de uma floresta, dizimando a fauna e a flora da região.
Perplexo, ele levantou-se como quem esperava o pior, pois o silêncio era um mau presságio.
Quando ele ameaçou caminhar, um novo tremor sucedeu, desta vez, mais forte e duradouro, as pedras rolaram e os gritos ecoaram pela aldeia, grandes árvores caíam por terra, arrastando consigo séculos de história.
Os pássaros abandonavam as árvores em revoada, os macacos pulavam de galho em galho em total desespero.
Aos pés de Eleg o chão começou a se abrir, formando uma imensa fenda, fazendo a terra sangrar, mostrando a lava incandescente.
Quando a ferida começou a cuspir bolas de fogo, o chão parou de tremer.
O fogo não abalou a confiança dele, que mesmo em meio à grande e espessa fumaça, avistou um material que brilhava como a luz do Sol.
Dando vazão à sua curiosidade, chegou perto da lava, uma vez que ele era o senhor do fogo e dos vulcões, o calor não lhe fez mal algum.
Com as mãos colheu o material.
Tratava-se de uma esfera de brilho estonteante, cuja cor dourada chegava a ofuscar seus olhos, que eram duas bolas de fogo.
Frente à infinita beleza, ele decidiu apossar-se da bola brilhante no intuito de juntá-la às suas outras descobertas, que ficavam escondidas em sua gruta, cujo caminho só ele conhecia.
A fumaça e a lava já se dissipara, quando o cafião, vislumbrando seu achado, dirigia-se para fora da aldeia.
Tomado por um grande delírio, pôde ouvir alguém atrás de si.
Era o chefe da aldeia, correndo em sua direcção, tropeçando, gritando aflito:
- Oh! Senhor das peripécias, eu suplico, não carregues nosso precioso objeto, pois nele está o sustento de nossa aldeia!
Se tirá-la de nós, tudo à nossa volta ruirá!
Demonstrando profundo desdém, o viril orixá abandonou o local, tomado pela energia da valiosa esfera.
À medida que Eleg se afastava, o que havia sobrado da aldeia caía por terra, dizimando todos que ali estavam, transformando tudo em pó e profundo silêncio.
A Grande Festa
De tempos em tempos, todas as tribos dos orixás se reuniam, para fazer a troca de energia entre eles.
Eleg, como era muito exibido, achou por bem levar sua última descoberta, para mostrá-la a todos.
Oxóssi, o grande caçador, trouxe um grande animal de infinita beleza, para alimentar a todos, ofertou frutas e legumes em enormes alguidares.
Ogun mostrou a todos a nova arma que forjara e logo tratou de abater o bicho trazido pelo caçador.
Obá e Oxum, que sempre colocavam à prova suas habilidades culinárias, ofereciam as mais diversas iguarias.
Omulu, com toda sua humildade, contou sobre as novas doenças que conheceu em suas últimas andanças.
Ossayn, do meio da mata, ensinou sobre novas ervas de cura.
Cada orixá tinha uma novidade para oferecer aos outros.
A certa altura da festa, o Eleg tirou de seu axó um objeto que parecia ter luz própria e ergueu-o sobre sua cabeça, neste momento Ogum e Oxalá pararam de falar, Oxóssi fez calar os atabaques, Iansã, Yemanjá e Oxum pararam de dançar, Xangô, Obá e Omulu deixaram de comer, Nanã, Oxumaré e Ewá abandonaram suas tendas, todos deixaram o que estavam fazendo para admirarem o maravilhoso artefacto.
Percebendo a estupefacção de todos os orixás e suas tribos frente à sua descoberta, Eleg encheu-se de satisfação e desfilou entre os presentes, para que todos pudessem ver de perto a esfera dourada, sem deixar ninguém tocá-la.
A cada comentário, a cada sussurro de surpresa, ele girava num pé só e delirava, a energia que sentia em seu corpo podia fazê-lo levitar.
- Vejam - sussurravam alguns presentes - Eleg pegou um pedaço de Oorum!
- Que objecto maravilhoso!
Diziam os mais estupefactos - que provas teve ele que vencer para conseguir tal artefato?
Esses eram alguns dos comentários que corriam entre os mais entusiasmados.
Como ele tinha os ouvidos apurados, gostou da idéia, viu nisto uma forma de aumentar sua glória.
Frente aos ansiosos pedidos de lhes revelar o que ele havia feito para obter a esfera dourada ele disse com soberba.
- Cansado de explorar a Terra, que parece já não ter mistérios que alimentem minha ânsia do saber, descobri um modo de ir a outros lugares do universo (mentira), perambulando pelos astros passei pelo Oorum, de onde tive a idéia de tirar este pedaço do astro rei, para provar a minha bravura.
Depois do instante de silêncio que sucedeu à narrativa, um alarido tomou conta do lugar, enquanto uns duvidavam da sua história, outros se entregavam à sua inigualável intrepidez, fazendo-lhe os mais diversos elogios.
Oxum, filha de Oorum e a mais bela yabá de toda Terra, sentiu suas pernas tremerem e sua boca secar, dirigindo-se para sua tenda, pensou consigo:
"Ah! Como meu querido pai pôde consentir que este esnobe o visitasse, sendo que eu, sua querida filha, nunca pude sequer fitá-lo daqui?
Como este convencido se atreve a pegar um pedaço de meu pai?"
Durante um bom tempo ela permaneceu calada, sua ira confundia-se com sua tristeza.
Quando sua mente parou de pensar por um instante na audácia de Eleg, ela atinou um plano: decidiu ter o objecto que acreditava ser um pedaço de Oorum, fazendo-se valer de sua beleza para seduzir o presunçoso cafião.
A Sedução de Oxum
A bela yabá, sabendo do profundo amor que o fanfarrão tinha por ela (o mesmo fizera questão de espalhar pelos quatro cantos do mundo, dizendo que ela um dia seria dele), foi com suas mucamas para a tenda de Eleg, ofertando-lhe um vinho, cuja safra deixava inveja ao néctar dos deuses.
Ele não escondeu a surpresa e a satisfação de ter sua amada procurando sua companhia.
De um salto ordenou aos convivas que se afastassem, alegando ter que dar atenção à yabá.
Convidou-a educadamente a dividir seu aconchego, oferecendo uma deliciosa carne provinda da caça de Oxóssi.
Deixando-se levar por seus prazeres, Eleg entregou-se totalmente aos encantos de Oxum, sem tirar nenhum momento os olhos da bela yabá, cujas madeixas eram enfeitadas com flores amarelas.
Para agradá-la ainda mais, pediu a seus serviçais que enfeitassem sua tenda com tecidos amarelos que eram a cor preferida dela.
Oxum dócil e sensual, apesar de ter várias mucamas, tomava para si a tarefa de colocar uvas e os nacos de carne mal passada na boca do cafião, que a cada mastigada gemia de prazer, que com certeza não eram simplesmente pelo maravilhoso gosto do alimento.
De quando em quando ele jogava-se no colo dela com a boca aberta, apontando para a quartinha de vinho, fingindo uma incontrolável impotência.
Ela, por sua vez, graciosamente pegava e virava o recipiente com tal precisão que nenhuma gota caía.
Depois de saborear o gole de tão sagrado líquido, uivava feito um animal no cio, chacoalhando os braços e a cabeça, deixando o suor do seu corpo espalhar-se pelo aposento, às vezes chegava a levantar-se e saltar, deixando-se levar pelo ímpeto do êxtase.
Nesta ora bastava a iabá tocar-lhe docilmente, para amansá-lo e fazer com que deitasse de novo ao seu lado.
Difícil saber qual prazer era maior: por um lado Eleg gozava o prazer de ter a seu lado uma yabá, cuja beleza encantava a qualquer ser, e ele nunca pôde chegar tão perto dela, mal podia acreditar no que acontecia, por outro lado Oxum deleitava-se ao ter sob seu domínio tão viril e indomável cafião, cuja sagacidade e disposição todos invejavam.
Depois de muito beber, ele se entregou por inteiro aos encantos da yabá, que, com toda sua infinita sedução, tentava convencê-lo a mostrar-lhe a caverna onde ele habitava.
Entorpecido pelo vinho e pela beleza dela, concordou em revelar esse grande segredo.
Depois da festa, Eleg dispensou os serviçais e saiu pela mata carregando Oxum nos braços, cumprindo o que prometera.
O caminho era longo e, mesmo sob os afagos infalíveis dela, ele ia pensando no que estava prestes a fazer, se valeria a pena ou não.
Chegando perto de sua gruta, Eleg deu ouvido à sua intuição e fez um encanto, colocando a yabá para dormir, para ela não saber onde era a entrada de sua morada. Assim não haveria arrependimento de forma alguma.
Oxum na Gruta de Eleg
Oxum acordou num lugar iluminado por labaredas que saiam de fendas no chão.
Estava deitada sobre macias peles de animais que não dava para precisar quais eram.
Sobre sua cabeça havia centenas de estalactites no tecto da ampla caverna, cuja cor estava perto do laranja ou vermelho, dependendo da oscilação das chamas.
Quando se levantou, observou que aos pés dos aposentos uma cesta repleta de mamões, seus frutos predilectos.
Num giro pelo lugar pôde ver a amplitude da caverna que era repleta de aberturas laterais, eram como portas que poderiam dar em qualquer lugar.
Indignada começou a rodar em volta de si e gritar desesperada:
- Eleg, Eleg, onde está você?
Por que me abandonou aqui?
Sua voz ecoava pela caverna fazendo parecer que havia muitas pessoas lá arremedando sua voz.
Isto irritava-a, fazendo com que ela colocasse as mãos nos ouvidos e ajoelhar-se no chão.
Depois de muito choro e lamentos, decidiu calar-se.
Quando se levantou para arriscar entrar em uma das aberturas da caverna, ouviu um barulho que parecia ser de alguém que chegava.
De uma das aberturas atrás dela surgiu sorridente Eleg, perguntando docilmente:
- Oh! Minha amada, já acordou?
Desculpe-me a ausência, precisei retirar-me por um instante apenas para guardar o meu pedaço de Oorum.
- Você não cumpriu o combinado!
Trazia-me no colo e, de repente, acordei aqui sozinha, sem nem saber como aqui cheguei! Disse ela furiosa.
- Nada posso fazer, se no meio do caminho você adormeceu.
Mas não vejo onde não cumpri o combinado, já que você agora conhece minha caverna.
Não se alegra ao saber que é a única a conhecê-la?
Disse ele astutamente deitando-se sobre as peles.
Vendo a possibilidade de seu plano ir por água abaixo, ela se jogou ao chão e começou a chorar.
Comovido pelos soluços da yabá, ele chegou perto e lhe acariciou os cabelos, tirando deles as pétalas das flores soltas.
Percebendo a comoção dele, ela chorava mais e mais.
- Não é necessário tal pranto, o que fiz eu de errado?
Perguntou Eleg pacientemente.
- Nada - disse ela, enxugando as lágrimas do rosto com as mãos - eu que sou uma tola.
Como posso estar aqui aos prantos na presença de tão viril e belo orixá?
- Então por que chora?
Disse ele totalmente embebido em sua vaidade.
- É que eu gostaria de tocar o pedaço do Sol, uma vez que é parte dos meus pais, que há muito me deixaram em nome de iluminar o mundo em que vivo.
Sinto que isto me faria matar um pouco da saudade que sinto deles.
- Sinto seu pesar, mas acredito que tal objecto só aumentará a falta que sente!Disse Eleg, procurando esquivar-se.
- Engano seu, eu sei que será bom para mim! Ela insistiu.
- Bom! Então eu vou buscar! Concluiu virando-se em direcção à abertura de onde saíra há pouco.
- Não! Espere! Eu não vou ficar aqui só de novo! Falou, correndo atrás do cafião.
- Lamento, mas não poderá ir até minha gruta secreta! Eleg mostrou-se arredio.
- Por que não quer que eu vá até sua câmara secreta, se nem sequer sei chegar até aqui?
Eleg pensou por um momento e caiu diante do argumento da yabá, concordando que ela não oferecia perigo nenhum.
Os dois iam pelas grutas, enquanto Eleg, esperto, entrava em várias aberturas, procurando deixá-la desnorteada.
Oxum, usando de toda sua sagacidade, foi jogando pelo caminho as pétalas das flores que estavam em suas melenas, com o máximo cuidado, para ele não perceber.
Quando chegou à câmara secreta de Eleg, ela ficou maravilhada, ao ver tantos pertences valiosos, e não economizou elogios ao cafião, que parecia desmanchar-se a cada palavra.
Ele se abaixou e pegou a bola brilhante e entregou nas mãos dela.
Uma sensação esquisita tomou conta da yabá.
Tal objecto mostrou que exercia uma imensa força sobre seu ser, um forte desejo de ter o pedaço a qualquer custo, seus olhos brilhavam e espelhavam os pensamentos maléficos que passavam pela sua mente, fazendo com que tirasse os pés do chão por um instante, várias idéias sem nexo boiavam na sua cabeça, o brilho da esfera fazia sua cabeça girar, girar...
- Oxum! Oxum! Este é o presente que ganhei de Ifá, o jogo de búzios - disse Eleg entregando a ela as conchas.
As palavras dele trouxeram-na de novo à realidade.
Ela, como se tivesse acordado de um sonho, entregou-lhe a bola com uma imensa dor e pegou o jogo.
- Veja! É através deste jogo que fico sabendo presente, passado e futuro...
- Maravilhoso! Disse ela, pegando as conchas e comprimindo-as ao corpo como se quisesse que elas atravessassem sua pele, num estado hipnótico.
Chegou a pensar em Ifá, seu tio, com ressentimento.
Enquanto Eleg mostrava seus tesouros, ela não parava de pensar em como adquirir a bola dourada, às vezes soltava um elogio furtivo, tentando disfarçar seu intento.
Depois de saciada a curiosidade dela, ele a levou para os seus aposentos, para eles se deleitarem.
Sem esquecer seu plano, a bela yabá entregou-se a um grande momento de amor, fazendo o cafião suar, uivar e gastar sua energia, falando falsas palavras de amor eterno com as quais ele delirava.
Depois de muito tempo, o grande vigor dele caiu por terra.
Ela o levara à exaustão, fazendo-o cair em sono profundo.
Quando teve a certa de que ele não se levantaria, ela, seguindo as pétalas pelo chão, correu para o esconderijo na intenção de resgatar o objeto que, para ela, pertencia-lhe por direito.
Chegando à câmara secreta ela se abaixou para pegar a esfera, viu os búzios e decidiu levá-los também.
Rapidamente ela pegou um pedaço de seu axó, fez uma trouxa onde ocultou os objetos e silenciosamente voltou para os aposentos.
Na ânsia de obter o que queria, ela se esqueceu de como faria para sair dali.
Olhava para as aberturas na caverna e começou a sentir-se tonta.
De repente prestou a atenção nas labaredas que saiam do chão e constatou que de uma das aberturas soprava um vento quase imperceptível.
Usando toda sua intuição, foi seguindo a brisa pelas aberturas da caverna.
Ao despertar todo amoroso, ele procurou Oxum pelos seus aposentos na intenção de elogiá-la pela grande noite de amor.
Quando descobriu que ela não estava, ele correu para a sua câmara secreta, lá deu falta de seus bens preciosos.
Cuspindo fogo por toda caverna, Eleg decidiu vingar-se.
Foi correndo e vociferando pela gruta em direcção à saída.
Oxum já estava quase saindo, quando ouviu o eco dos berros de Eleg.
Procurando preservar-se, ela correu sem olhar para trás.
Ele saiu da caverna emanando fogo para todos os lados, fazendo a floresta arder em fogo.
Quando avistou um rio, ela mergulhou em suas águas, para fugir das chamas.
A Busca de Eleg
Oxum, sabendo que Eleg não descansaria enquanto não a encontrasse, saiu espalhando, pelas tribos por onde passava, que resgatara os bens valiosos que lhe foram roubados e que ele havia mentido quando disse a todos que eram suas descobertas.
Por conta das peripécias dele e sua grande capacidade de inventar histórias, todos tenderam a acreditar na yabá, dando-lhe cobertura na fuga, mas sem lhe dar guarida, por temerem perder a simpatia dele.
Diante da dificuldade em se esconder, ela decidiu pedir abrigo a Oxóssi, seu grande amor.
Depois de ouvir a versão dela, ele decidiu abrigá-la em sua mata.
O caçador tinha consciência de que o sagaz cafião não a incomodaria, enquanto estivesse por perto, mas sabia que, quando fosse caçar, nada deteria o furioso orixá.
Assim aconselhou Oxum a procurar Yemanjá, cujo reino ficava no fundo do mar.
Depois de uma longa busca, Eleg ficou sabendo onde a deusa da beleza estava escondida.
Inconformado, ele foi ao reino de sua mãe, com a certeza de que ela o ouviria a ponto de fazer Oxum devolver-lhe seus bens preciosos.
Ele foi bem recebido, mas Yemanjá parecia ressabiada com a presença dele.
- Minha mãe! Disse ele com reverência.
- Meu filho! O que o traz por estes lados? - indagou tentando disfarçar.
- Minha mãe deve saber o motivo de minha inusitada visita, já que não costumo vir a seu belo reino. - Eleg ironizou.
- Bom! Já deveria saber que não viria aqui simplesmente para me ver.
- Já sei que Oxum deve ter contado sua versão, fiquei sabendo em algumas tribos por onde passei.
Espero que pelo menos a senhora minha mãe acredite na minha versão - falou curvando-se em respeito à benevolente yabá.
- Como posso acreditar em suas histórias, sendo que já mentiu tanto para todos? Quem pode me assegurar que conta a verdade agora? - desafiou Yemanjá.
- Como pode preterir seu próprio filho, para proteger uma yabá tão perversa!
Ele levantou, soltando chispas pelos olhos, fincou o pé no chão, levantou seu tridente e continuou furioso.
- Minha mãe pode escondê-la por enquanto, mas não sossegarei enquanto não obtiver o que por direito me pertence!
Ele virou-se de costas para Yemanjá, mostrando indignação e desrespeito, e saiu rapidamente, deixando suas pegadas ardendo em fogo no caminho que tomou para sair do reino.
À medida que andava, Eleg sentia a fúria transformar-se em consternação: como sua mãe escolheu proteger Oxum que o roubara?
Oxalá e Xangô vinham conversando animados pelo caminho.
Andavam em direção ao reino de Yemanjá.
Falavam sobre a evolução dos reinos, as guerras e as doenças.
Às vezes riam, às vezes calavam-se, buscando levantar novos assuntos para deliberarem.
Foi num intervalo destes que Xangô avistou mais à frente alguém caminhando cabisbaixo.
- Olhe meu ‘pai’, aquele não é Eleg? Perguntou Xangô, apontando na direção do cafião.
- Sim! Mas o que aconteceu para estar tão absorto? Indagou Oxalá.
Eleg nunca foi visto daquele jeito, sempre aparecia animado, sorridente e sempre atento, prestes a pregar a peça em alguém.
Tal comportamento despertava o interesse de qualquer um que o visse.
- O que aconteceu com você, meu filho? Indagou Oxalá, ao chegar perto de Eleg - Parece que é algo muito grave!
O tristonho contou-lhes o que sucedera: a conduta de Oxum e o desprezo de Yemanjá.
Frente à atitude de sua amada, Yemanjá, Oxalá começou a desconfiar dele, devido seus antecedentes, já que tanto ele quanto Xangô não sabiam do ocorrido. Frente ao relato, ele disse em tom punitivo, apoiando-se em seu cajado:
- Vejo que você não tem jeito! Sempre arrumando confusão! Ordeno...
- Espere, meu ‘pai’! Atalhou Xangô - acredito que, antes de condená-lo, deveríamos ouvir Oxum, para sabermos o que realmente aconteceu.
Diante do conselho de tão justo orixá, Oxalá pensou e decidiu ouvir a versão de Oxum.
Os três dirigiram-se para o reino de Yemanjá rapidamente. Oxalá ouvia os conselhos de Xangô, enquanto Eleg não dizia uma palavra.
O ‘senhor do fogo’ não quis entrar no reino, seguiram então Oxalá e Xangô, ansiosos para encontrarem Oxum.
Uma vez no reino de Yemanjá, Oxalá ordenou que a bela yabá viesse à sua presença, para relatar-lhes o acontecido. Ela então veio e contou sua versão, chorando e soluçando.
Quando o supremo tendia a acreditar na história dela, Xangô interviu, dizendo que seria necessário colocar os dois frente a frente, para apurar quem dizia a verdade.
Oxum mostrou-se resistente perante a ideia, temendo ser desmascarada. Alegou estar com medo da fúria de Eleg. Sentindo que algo de errado havia na recusa, Oxalá prometeu que nada lhe aconteceria e convocou todos os orixás para um conselho.
O Julgamento de Oxalá
Ao contrário das festas, apenas os orixás estavam presentes no conselho. Nanã mesmo distante e envergonhada por sua forma, esteve presente. Ela recusava-se a chegar perto dos cafiões e, se pudesse opinar, certamente condenaria Eleg, além de odiar qualquer ser masculino, adorava Oxum, a única que foi visitá-la e presenteá-la após ter sido banida do reino por Oxalá.
Ossãe, embora não sendo visto por ninguém, fazia-se presente, de quando em quando assobiava e ria. Muitas versões corriam entre todos, muitas delas já haviam sofrido os efeitos da boca-a-boca transformando-se nas mais absurdas histórias.
Xangô prostrou-se ao lado de Oxalá, enquanto Eleg e Oxum ficaram em pé frente a frente no centro do conselho. Os olhos de fogo soltavam chispas, enquanto os olhos d’água dela lacrimejavam.]
- Com o poder que me foi concedido por Olorum, o criador, convoquei a todos, para presenciarem este julgamento.
Espero que todos tomem por conhecimento o que virem e ouvirem hoje!
Falou Oxalá com eloquência.
Sob os olhos dele, Xangô conduziu o julgamento.
Pediu a Eleg e Oxum que contassem suas versões.
Depois chamou Ifá para esclarecer sobre os búzios.
Com o coração partido, já que tinha que desmentir a versão de sua sobrinha e filha de criação, contou a todos como e porque deu o jogo ao cafião.
À medida que Ifá relatava, Eleg enchia-se de razão e Oxum ia curvando-se sobre si.
- Ifá! Disse Oxalá, acredito que não agiu certo dando tão poderoso jogo a um só orixá!
- Sim, Oxalá! Eu concordo. Para corrigir isto - disse Ifá, pegando os búzios e jogando-os para o céu - determino que a partir de agora cada búzio representará um orixá no jogo. E como a princípio eu o dei a Eleg, todos que forem consultar este jogo deverão pedir permissão a ele.
Para esclarecer sobre a esfera, Odudua fez-se presente.
- Venho falar em verdade, pois presenciei o fato.
Eleg, preso em sua ambição, retirou esta bola brilhante de uma aldeia, que ruiu pela falta de tal artefacto e, mesmo tendo sido alertado do que poderia acontecer, nem sequer se abalou.
Após o relato da ‘mãe natureza’ houve um burburinho entre os presentes, Eleg abaixou a cabeça e cerrou os punhos. Xangô sentou-se e Oxalá levantou-se dizendo: - Visto os fatos, concluo que: tanto um quanto outro erraram: por um lado Oxum roubou artefactos que pertenciam a um outro orixá, por outro lado, Eleg mentiu, dizendo ter tirado um pedaço de Oorum, mas de facto dizimou uma aldeia. Diante dos fatos eu decido que a esfera dourada não ficará com nenhum dos dois, mas pertencerá a ambos: o metal ficará incrustado nas rochas, aprisionando a ganância de Eleg, mas para ser tirado, precisará ser garimpado nas águas, para lavar a inveja de Oxum.
Enquanto a yabá chorava, Eleg falou irado.
- Acato o veredicto - virando-se para Oxum, praguejou - já que fui enganado e julgado por conta deste metal, todo aquele que tiver contacto com ele, assim como você, mostrará seus demónios, sendo tomado pela nossa ambição presa nele.
Ao sair do conselho, Eleg irado jurou para si que sempre perseguiria tanto Oxum quanto qualquer um que vivesse sob sua protecção (daí nasceram os epurins, filhos(as) de Oxum perseguidos por Eleg), e, como vingança, inseriu sementes negras nos frutos predilectos dela, os mamões, para que, quando ela fosse comer, sentisse sua presença e se lembrasse do mal que lhe fez.

XIV
Exu instaura o conflito entre Yemanjá, Oyá e Oxum
Um dia, foram juntas ao mercado Oyá e Oxum, esposas de Xangô, e Yemanjá, esposa de Ogum.
Exu entrou no mercado conduzindo uma cabra.
Ele viu que tudo estava em paz e decidiu plantar uma discórdia.
Aproximou-se de Yemanjá, Oyá e Oxum e disse que tinha um compromisso importante com Orunmilá.
Ele deixaria a cidade e pediu a elas que vendessem sua cabra por vinte búzios. Propôs que ficassem com a metade do lucro obtido.
Yemanjá, Oyá e Oxum concordaram e Exu partiu.
A cabra foi vendida por vinte búzios. Yemanjá, Oyá e Oxum puseram os dez búzios de Exu à parte e começaram a dividir os dez búzios que lhes cabiam. Yemanjá contou os búzios. Haviam três búzios para cada uma delas, mas sobraria um. Não era possível dividir os dez em três partes iguais. Da mesma forma Oyá e Oxum tentaram e não conseguiram dividir os búzios por igual. Aí as três começaram a discutir sobre quem ficaria com a maior parte.
Yemanjá disse: "É costume que os mais velhos fiquem com a maior porção. Portanto, eu pegarei um búzio a mais".
Oxum rejeitou a proposta de Yemanjá, afirmando que o costume era que os mais novos ficassem com a maior porção, que por isso lhe cabia.
Oyá intercedeu, dizendo que , em caso de contenda semelhante, a maior parte caberia à do meio.
As três não conseguiam resolver a discussão. Então elas chamaram um homem do mercado para dividir os búzios equitativamente entre elas. Ele pegou os búzios e colocou em três montes iguais. E sugeriu que o décimo búzio fosse dado a mais velha. Mas Oyá e Oxum, que eram a segunda mais velha e a mais nova, rejeitaram o conselho. Elas se recusaram a dar a Yemanjá a maior parte.
Pediram a outra pessoa que dividisse equitativamente os búzios. Ele os contou, mas não pôde dividi-los por igual. Propôs que a parte maior fosse dado à mais nova. Yemanjá e Oyá não concordaram.
Ainda um outro homem foi solicitado a fazer a divisão. Ele contou os búzios, fez três montes de três e pôs o búzio a mais de lado. Ele afirmou que, neste caso, o búzio extra deveria ser dado àquela que não é nem a mais velha, nem a mais nova. O búzio devia ser dado a Oyá. Mas Yemanjá e Oxum rejeitaram seu conselho. Elas se recusaram a dar o búzio extra a Oyá.
Não havia meio de resolver a divisão.
Exu voltou ao mercado para ver como estava a discussão. Ele disse: "Onde está minha parte?".
Elas deram a ele dez búzios e pediram para dividir os dez búzios delas de modo equitativo.
Exu deu três a Yemanjá, três a Oyá e três a Oxum. O décimo búzio ele segurou.
Colocou-o num buraco no chão e cobriu com terra.
Exu disse que o búzio extra era para os antepassados, conforme o costume que se seguia no Orun.
Toda vez que alguém recebe algo de bom, deve-se lembrar dos antepassados. Dá-se uma parte das colheitas, dos banquetes e dos sacrifícios aos Orixás, aos antepassados. Assim também com o dinheiro. Este é o jeito como é feito no Céu. Assim também na terra deve ser.
Quando qualquer coisa vem para alguém, este deve-se dividi-la com os antepassados. "Lembrai que não deve haver disputa pelos búzios."
Yemanjá, Oyá e Oxum reconheceram que Exu estava certo. E concordaram em aceitar três búzios cada.
Todos os que souberam do ocorrido no mercado de Oió passaram a ser mais cuidadosos com relação aos antepassados, a eles destinando sempre uma parte importante do que ganham com os frutos do trabalho e com os presentes da fortuna.
[Lenda 24 do Livro Mitologia dos Orixás ]

XV
Esú torna-se o amigo predilecto de Orunmila
Como se explica a grande amizade entre Orunmila e Exu, visto que eles são opostos em grandes aspectos ?
Orunmila, filho mais velho de Olorun, foi quem trouxe aos humanos o conhecimento do destino pelos búzios. Exu, pelo contrário, sempre se esforçou para criar mal-entendidos e rupturas, tanto aos humanos como aos Orixás. Orunmila era calmo e Exu, quente como o fogo.
Mediante o uso de conchas adivinhas, Orunmila revelava aos homens as intenções do supremo deus Olorun e os significados do destino. Orunmila aplainava os caminhos para os humanos, enquanto Exu os emboscava na estrada e fazia incertas todas as coisas. O carácter de Orunmila era o destino, o de Exu, era o acidente. Mesmo assim ficaram amigos íntimos.
Uma vez, Orunmila viajou com alguns acompanhantes. Os homens de seu séqüito não levavam nada, mas Orunmila portava uma sacola na qual guardava o tabuleiro e os Obis que usava para ler o futuro.
Mas na comitiva de Orunmila muitos tinham inveja dele e desejavam apoderar-se de sua sacola de adivinhação. Um deles mostrando-se muito gentil, ofereceu-se para carregar a sacola de Orunmila. Um outro também se dispôs à mesma tarefa e eles discutiram sobre quem deveria carregar a tal sacola.
Até que Orunmila encerrou o assunto dizendo: "Eu não estou cansado. Eu mesmo carrego a sacola".
Quando orunmila chegou em casa, reflectiu sobre o incidente e quis saber quem realmente agira como um amigo de fato. Pensou então num plano para descobrir os falsos amigos. Enviou mensagens com a notícia de que havia morrido e escondeu-se atrás da casa, onde não podia ser visto. E lá Orunmila esperou.
Depois de um tempo, um de seus acompanhantes veio expressar seu pesar. O homem lamentou o acontecido, dizendo ter sido um grande amigo de Orunmila e que muitas vezes o ajudara com dinheiro. Disse ainda que, por gratidão, Orunmila lhe teria deixado seus instrumentos de adivinhar.
A esposa de Orunmila pareceu compreende-lo, mas disse que a sacola havia desaparecido. E o homem foi embora frustrado.
Outro homem veio chorando, com artimanha pediu a mesma coisa e também foi embora desapontado. E assim, todos os que vieram fizeram o mesmo pedido. Até que Exu chegou.
Exu também lamentou profundamente a morte do suposto amigo. Mas disse que a tristeza maior seria da esposa, que não teria mais pra quem cozinhar. Ela concordou e perguntou se Orunmila não lhe devia nada. Exu disse que não. A esposa de Orunmila persistiu, perguntando se Exu não queria a parafernália de adivinhação
Exu negou outra vez. Aí Orunmila entrou na sala, dizendo: "Exu, tu és sim meu verdadeiro amigo!".
Depois disso nunca teve amigos tão íntimos, tão íntimos como Exu e Orunmila.
[ lenda 27 do Livro Mitologia dos Orixás]

XVI
Exu leva aos homens o oráculo de Ifá
Em épocas remotas os deuses passaram fome. Às vezes, por longos períodos, eles não recebiam bastante comida de seus filhos que viviam na Terra.
Os deuses cada vez mais se indispunham uns com os outros e lutavam entre si guerras assombrosas. Os descendentes dos deuses não pensavam mais neles e os deuses se perguntavam o que poderiam fazer. Como ser novamente alimentados pelos homens ? Os homens não faziam mais oferendas e os deuses tinham fome. Sem a protecção dos deuses, a desgraça tinha se abatido sobre a Terra e os homens viviam doentes, pobres, infelizes.
Um dia Exu pegou a estrada e foi em busca de solução. Exu foi até Iemanjá em busca de algo que pudesse recuperar a boa vontade dos homens. Iemanjá lhe disse: "Nada conseguirás. Xapanã já tentou afligir os homens com doenças, mas eles não vieram lhe oferecer sacrifícios".
Iemanjá disse: "Exu matará todos os homens, mas eles não lhe darão o que comer. Xangô já lançou muitos raios e já matou muitos homens, mas eles nem se preocupam com ele. Então é melhor que procures solução em outra direcção. Os homens não tem medo de morrer. Em vez de ameaçá-los com a morte, mostra a eles alguma coisa que seja tão boa que eles sintam vontade de tê-la. E que, para tanto, desejem continuar vivos".
Exu retornou o seu caminho e foi procurar Orungã.
Orungã lhe disse: "Eu sei por que vieste. Os dezasseis deuses têm fome. É preciso dar aos homens alguma coisa de que eles gostem, alguma coisa que os satisfaça.. Eu conheço algo que pode fazer isso. É uma grande coisa que é feita com dezasseis caroços de dendê. Arranja os cocos da palmeira e entenda seu significado. Assim poderás conquistar os homens".
Exu foi ao local onde havia palmeiras e conseguiu ganhar dos macacos dezasseis cocos. Exu pensou e pensou, mas não atinava no que fazer com eles. Os macacos então lhe disseram: "Exu, não sabes o que fazer com os dezasseis cocos de palmeira? Vai andando pelo mundo e em cada lugar pergunta o que significam esses cocos de palmeira. Deves ir a dezasseis lugares para saber o que significam esses cocos de palmeira. Em cada um desses lugares recolherás dezasseis odus. Recolherás dezasseis histórias, dezasseis oráculos. Cada história tem a sua sabedoria, conselhos que podem ajudar os homens. Vai juntando os odus e ao final de um ano terás aprendido o suficiente. Aprenderás dezasseis vezes dezasseis odus. Então volta para onde moram os deuses. Ensina aos homens o que terás aprendido e os homens irão cuidar de Exu de novo".
Exu fez o que lhe foi dito e retornou ao Orun, o Céu dos Orixás. Exu mostrou aos deuses os odus que havia aprendido e os deuses disseram: "Isso é muito bom".
Os deuses, então, ensinaram o novo saber aos seus descendentes, os homens. Os homens então puderam saber todos os dias os desígnios dos deuses e os acontecimentos do porvir. Quando jogavam os dezasseis cocos de dendê e interpretavam o odu que eles indicavam, sabiam da grande quantidade de mal que havia no futuro. Eles aprenderam a fazer sacrifícios aos Orixás para afastar os males que os ameaçavam. Eles recomeçavam a sacrificar animais e a cozinhar suas carnes para os deuses. Os Orixás estavam satisfeitos e felizes. Foi assim que Exu trouxe aos homens o If'á.
[Lenda 28 do livro Mitologia dos Orixás]

XVII
Eshu, o filho faminto de Orunmilá
Um dia Orunmilá foi procurar Oxalá em seu palácio.
Orunmilá e sua mulher queriam ter um filho.
Chegando ao palácio de Oxalá, Orunmilá encontrou Eshu Yangui sentado à esquerda da entrada principal. Já dentro do palácio, e diante do velho rei, Orunmilá fez seu apelo, escutando de Oxalá uma resposta negativa.
O velho rei afirmou-lhe que ainda não era tempo da chegada de um filho.
Orunmilá, insatisfeito e ao mesmo tempo curioso, perguntou a Oxalá quem era aquele menino sentado à porta do palácio e pediu ao rei, se poderia levá-lo como filho. Oxalá garantiu-lhe que não era o filho ideal de se ter, ao que Orunmilá insistiu tanto em seu pedido que obteve a graça de Oxalá.
Tempos depois nasceu Eshu, filho de Orunmilá. Para espanto dos pais, nasceu falando e comendo tudo o que estava à sua volta, acabando por devorar a própria mãe. Eshu aproximou-se de Orunmilá para também comê-lo.
Entretanto, o adivinho tinha consigo uma espada e enfurecido, partiu para matar o filho. Eshu fugiu, sendo perseguido por Orunmilá, que a cada espaço do céu alcançava-o, cortando Eshu em duzentos e um pedaços. A cada encontro, o ducentésimo primeiro pedaço transformava-se novamente em Eshu. Assim terminaram por atingir o último espaço sagrado e, como não tinham mais saída, resolveram entrar num acordo. Eshu devolveu tudo o que havia comido, inclusive sua mãe, em troca seria sempre saudado primeiro em todos os rituais.

XVIII
Porque Eshu não deve viver na Casa de Oxalá
Eshu gostava muito de dançar e para ir a uma festa fazia qualquer coisa.
Um dia havia uma festa e ele não podia ir porque não tinha dinheiro.
Fez todos os esforços possíveis até que, como última alternativa, chegou a casa de Oxalá e prometeu limpar-lhe a casa todos os dias se ele o livrasse de um grande apuro que tinha.
Oxalá aceitou e pagou-lhe adiantado, pelo que Eshu pode ir à festa nessa noite.
Esteve muito contente e divertiu-se muitíssimo, estando tão cansado no outro dia que lhe custou fazer o trabalho a Oxalá como tinham combinado.
A limpeza foi feita de má vontade, nesse e em todos os outros dias.
Enquanto isto sucedia, Oxalá ficou doente repentinamente, a tal ponto que teve que consultar Orunmilá. Nesta consulta saiu que na sua casa havia alguém que não era dali e que era necessário que se fosse embora.
Que apenas esse alguém saísse de sua casa, ele melhoraria de saúde, e também lhe foi dito que aquele que estava em sua casa se sentia preso e que essa era a razão da sua enfermidade.
Oxalá recordou-se do rapaz que tinha na sua casa para a limpeza, mas não o despediu de imediato, e, quando houve outra festa na povoação disse-lhe: "Toma este dinheiro e vai à festa.
Já não me deves nada, mas não me abandones e visita-me quando quiseres". Eshu foi-se embora muito contente e desde esse momento Oxalá começou a melhorar e curou-se da doença que tinha.